sábado, 12 de dezembro de 2015

Dentes: questão de valores



Cresci com a ideia de que dentes fortes são meio amarelados, e não brancos como os pelos de um coelho. Por esse motivo, sempre me recusei a fazer um tratamento de clareamento dentário, mesmo diante da insistência do meu dentista. Se o procedimento não se tratasse de desgaste dos dentes, eu até poderia arriscar, mas saber que clareamento não combina com o corante de alguns alimentos, por si só já me desmotiva. Apesar de não ter inclinação para a área da saúde, gosto de acompanhar as novidades odontológicas e fazer comparações com a dentição de artistas ao longo de suas vidas. Até a adolescência eu guardava, em pastas, reportagens que mostravam atores e atrizes, antes da fama, com arcadas tortas, manchadas estragadas e, depois com o novo sorriso estampado nas revistas. Hoje, a internet se tornou minha ferramenta favorita para estas comparações do “antes e depois” dos dentes de famosos.

Saber que alguns artistas, como Tom Cruise e Demi Moore mudaram suas feições após procedimentos ortodônticos é, no mínimo, delicioso e compensador. E o que dizer, então, da cantora Whitney Houston, cujas falhas na arcada dentária, só vieram a público depois de sua morte, num programa americano, especializado em autópsia? No Brasil, os casos que mais chamaram a atenção ultimamente foram os tratamentos dentários dos cantores Belo, que implantou 23 coroas e de Anderson, do Grupo Molejo, que implantou 12 de porcelana, e do jogador de futebol, Ronaldinho Gaúcho. Mas, há outros artistas que se submetem a tratamentos e não anunciam em rede nacional. Não por discrição apenas, mas por vergonha.
Possuir todos os dentes, até a vida adulta, não é tarefa fácil, principalmente por causa da alimentação atual, carregada de açúcares e farináceos, que contribuem para a formação de tártaro e cáries. Já a limpeza incorreta permite a proliferação de bactérias na boca, sem contar que algumas pessoas utilizam palitos de dentes, que além de nojento, ferem as gengivas. Talvez por essa dificuldade em manter a dentição por toda a vida, os dentes sejam tão valorizados, e o tratamento, tão caro. É um custo, que na maioria das vezes, o brasileiro não tem como arcar, e por isso, percebe sua dentição se desfazendo à medida em que envelhece.
Na adolescência, meu amigo encantava as pessoas pelo sorriso largo e dentes muito alvos. Bem-humorado, sua gargalhada contagiava e era impressionante ver aquela arcada retilínea sem uma cárie sequer. Depois de alguns anos, o recebi para uma conversa e não tinha como perceber que lhe faltara um pré-molar. No alpendre, sentada em frente a ele, eu observava sua gengiva vermelha e inchada e imaginei tratar-se de gengivite, escorbuto ou outra doença específica. Mantendo discrição, imaginei que perderia toda a dentição, caso não fizesse um tratamento. Meu raciocínio se confirmou, quando o encontrei num ponto de ônibus alguns anos depois. Meu amigo estava banguela e me sorria com a boca larga como antes. Ele me apresentou a noiva, conversamos um pouco e me despedi sem graça.
Tive a sensação de que falhei com amigo. Eu poderia ter-lhe avisado que sua dentição estava em risco, mas é um assunto delicado e não tínhamos tanta intimidade assim. Talvez, sem perceber, meu amigo perdera o que tinha de mais bonito. Mas, se eu fiquei preocupada, ele nem se importou e levava a vida normalmente, sem dentes. Ao contrário de mim, que chorei muito nas vezes em que extraí os meus sisos. Mas, a meu ver a questão não é apenas estética, mas funcional. Ao substituirmos os dentes por dentadura, como era frequente há algumas décadas, a voz muda, como no caso do cantor Francisco Alves, além da higiene ficar comprometida. Essa troca de dentes verdadeiros pelos falsos era tão comum que constantemente víamos os adultos com um lenço na boca, após a extração completa no dentista.  
Os tratamentos ortodônticos avançam com novidades que surgem a cada ano. São implantes, branqueamentos, aparelhos móveis e fixos, tudo para melhorar a mordida e a fala. Mas, de nada adianta todo um aparato tecnológico se nós não tivermos a consciência de que o cuidado com os dentes deve ser diário. Nos dias de hoje ainda há pessoas que não têm o costume de escovar os dentes, de usar fio dental, de procurar um dentista a cada semestre. Costumamos reclamar do valor gasto no dentista, mas não nos importamos em trocar de carro todo ano, por exemplo. Dentes não são unhas encravadas, que cortamos quando nos incomodam. Dentes são valores: mostram quem somos, como nos amamos, como nos cuidamos.

2 comentários:

  1. Eu tbm prezo muito meus dentes, e só de pensar em perdê-los quase morro. Ah Carla VC tem.um.sorriso.muito.bonito

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  2. obrigada, josiane. você é muito gentil. beijo grande.

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