sábado, 9 de fevereiro de 2019

O ANTES E O DEPOIS

Eu sou muito desanimada, odeio sair à noite e raramente compareço à festas, porque durmo muito cedo e não tenho companhia para passar a madrugada conversando e rindo de assuntos sem muita importância. Mas nem sempre foi assim. Aos 20 anos, era de praxe toda sexta-feira, após uma semana exaustiva de trabalho, eu e duas amigas irmos a um barzinho na região sul de Belo Horizonte, onde acreditávamos fazer parte de um grupo de intelectuais que havíamos conhecido há alguns meses. Eram médicos, advogados, dentistas e empresários bem sucedidos, que nos aceitaram no grupo, de forma respeitosa, apesar da nossa extravagância no falar, no agir e no vestir. Ao contrário deles, não tínhamos curso superior e nem dinheiro. Também não conhecíamos o mundo e nossas roupas não eram adquiridas em shoppings ou butiques, mas em lojas populares, a prestações a perder de vista. Nunca, naquele grupo, ouvimos qualquer crítica quanto ao nosso jeito de ser e era surpreendente a educação deles conosco. É verdade também que havia um afastamento da parte deles, que indicava um não pertencimento, mesmo que sutil. Mas, nosso raciocínio era no presente e naquele momento, só nos importava a diversão e não a filosofia.
A juventude usa tapa-olhos que não permite uma criticidade no ato das ações ou antes delas. Por isso não se tem noção da extravagância ou dos abusos cometidos no meio externo. É também por esta razão, que muitas vezes, a pessoa madura tem vergonha do que já passou, do que produziu com sua falta de desconfiômetro, de tempos passados. Me sinto assim, neste exato momento, esperançosa de que as marcas da idade não me faça reconhecida por aqueles integrantes, que hoje também devem estar totalmente diferentes do que se apresentavam há décadas atrás.Não se trata de vergonha, mas da idéia do quão ridículas deveríamos ter sido, naquelas sextas-feiras em que nossas risadas chamavam tanta atenção naquele local sem música de fundo. Mas, se a juventude é cega, a maturidade é uma cirurgia de catarata, que permite a recuperação da visão, como num espelho dividido ao meio, cujo passado e presente podem ser comparados em tempo real.
Relembrar aquela época não me coloca em pé de igualdade com aqueles membros do grupo, porque jamais terei tanto dinheiro quanto eles e nem a posição social que ocupam. E nunca foi este o meu interesse. Tanto que eu e minhas amigas passamos a não frequentar mais aquele barzinho, sem dar satisfação ou qualquer despedida àqueles senhores e senhoras. Inicialmente, a diferença financeira, social e intelectual pode até seduzir, mas com o tempo, vai ficando chato. E é bom que saiamos da festa antes que ela termine. Quem me vê, hoje, ainda percebe aquela menina risonha, divertida e alegre. Porém, estou mais comedida, mais ética, mais contida. Exatamente como aquele grupo, cujos integrantes nos entendiam e nos aceitavam, sem críticas. Mal sabiam que éramos nós três que mais aprendíamos com eles. 



Carla Vilaça.