quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mais bela com o tempo? Ou o tempo é que nos faz belas?

Ela era a garota mais linda e rica da escola. Tanta beleza e simpatia provocavam inveja nas demais alunas, entre elas eu. Feia e pobre, meu desejo era ser filha única como aquela menina, e ter todos os desejos realizados, como na Quadrilha de 1980, quando ela foi a Rainha da Pipoca. De vestido branco com saia transparente e esvoaçante, a beldade se comportou como uma realeza. E foi assim que, depois da festa, ela seguiu a pé, para a casa de dois andares que ficava na mesma rua do colégio, um privilégio para poucos. Admirada como uma artista, muitos colegas acompanharam seus passos, enquanto ela sorria, agradecendo a gentileza, sem se importar com a sujeira no vestido arrastado pelo asfalto.
Ter tudo na adolescência quer dizer poder. Como a insegurança faz parte do crescimento, na juventude somos cheios de medo. Tememos um mundo que se abre com tantas possibilidades: de amar, de ser amado por pessoas que não são da nossa família, de poder viajar sem compromissos, ou de fazer escolhas. E é este o maior pavor. Que escolhas faremos se não temos experiências? São os resultados delas que determinam nossas opções. E por isso erramos muito. Estamos apenas no começo da vida e não temos exemplos concretos, pessoais, do que deu certo ou errado e por isso costumamos ouvir outras pessoas.
E aquela menina tinha tudo: beleza, dinheiro, desejos realizados, pais amorosos e a falta de irmãos para dividir seus objetos. Naquela época, de vida tão difícil, as famílias eram compostas de muitos filhos, e dar alimento a todos eles era basicamente o objetivo dos pais. Mas, aquela garota tinha tudo e não precisava dividir nada e isso era tudo o que sonhávamos, e por isso, ela representava o poder. Mas, infelizmente, num dia de semana, o mundo daquela garota se desmoronou. Antes de ir ao trabalho, sua mãe, professora em outra escola, separada, dirigindo seu fusca bege do ano, bateu com ele contra um poste, que caiu em sua cabeça. A mulher, ainda jovem, com traços marcantes como os da filha, mas não tão linda como ela, morrera na hora, sem se despedir daquela menina, para sempre. Em estado de choque, aquela garota ficou muito tempo sem ir à escola. Os colegas, praticamente toda a escola, foi à sua casa, mas não foram recebidos. Da padaria, onde eu comprava pão, eu observvava aqueles garotos e garotas uniformizados, ansiosos por notícias, como se a adolescente fosse uma celebridade. Mas, pela primeira vez ninguém quis o seu lugar.
Durante muito tempo vi aquela garota apenas de uniforme e não mais com roupas elegantes como antes daquele acidente. Um ano mais velha do que eu, ela se formou naquela escola pública e a vi alguns anos depois, num barzinho, ao lado do namorado, do pai e da madrasta. Eu estava com 18 anos, me sentia mais segura de mim e já não a achei tão bonita como antes. Seus cabelos, lisos, tinham sido cortados e estavam meio arrepiados. Ela me reconheceu, mas não nos cumprimentamos. Não éramos amigas, nem colegas de classe, mas uma vez, sem par na formatura do quarto ano, dançamos a valsa juntos, por sugestão de sua prima: "Ah, dança com essa menina aí, que tá sozinha". Naquela idade, tínhamos vergonha de dançar com os meninos, e por isso nossos pares eram com outras meninas. Me senti um lixo com a frase, mas ao mesmo tempo, honrada por segurar nas mãos aveludadas da menina mais rica e bonita da escola. Ao contrário de mim, ela não precisava ajudar a mãe nas tarefas domésticas e por isso, não tinha calos, como eu, nem a pele grossa como a minha.
Eu gostaria de saber como está aquela menina hoje, algumas décadas depois. Talvez, como eu, ela tenha engordado, esteja cheia de filhos ou tenha optado por ficar solteira. Quem sabe se está ainda mais linda, ou, ao contrário, lotada de rugas? O certo é que com o passar do tempo vamos encontrando outras mulheres a quem admirar. Até que encontramos um meio-termo em que nos adoramos tanto, que mesmo enrugadas, preferimos a nós mesmas do que imitarmos outras pessoas. Na vida tive muitas referências de beleza, como artistas e colegas de escola ou amigas. Hoje estou mais segura e prefiro me amar com todos os meus defeitos. O mundo é lotado de beldades, mas faço parte da ala simples de mulheres, que se gostam e se produzem como pode. Já não tenho o mesmo corpo de antes, nem o rosto de antes, mas a minha hístória de vida é responsável por cada nova ruga que aparece. Não tenho medo do tempo. Tenho medo de morrer em vida. Ou, ser levada muito jovem, como a mãe daquela menina. E a beleza é assim: a cada dia ela brota de um jeito no nosso coração, por isso não percebemos a velhice chegando. Ser velho é viver, é transparecer na pele todas as angústias e alegrias pelas quais passamos. Me sinto melhor hoje do que aos 13 ou 18 anos. Mas, só por curiosidade: como será que anda aquela menina?



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Beijos,

Carla Vilaça