sexta-feira, 21 de março de 2014

Quase laranja!

Muitas pessoas no Brasil são utilizadas como "laranjas", sem que saibam, e muitas só percebem o abuso ao serem procuradas pela polícia. Na maioria das vezes, elas são vítimas de conhecidos, parentes ou patrões, que de posse de seus documentos, fazem todo tipo de transação financeira, em que o lucro é garantido aos mentores, enquanto as penalidades são dirigidas às vítimas, geralmente, pessoas humildes e ingênuas.
Eu, aos vinte e poucos anos, quase caí num golpe destes. Recém-contratada num firma de eventos, recebi um telefonema do chefe para que enviasse, via fax, notas fiscais que deveriam ser preenchidas de acordo com os valores que ele me informava. Aquela movimentação toda, o escritório com painéis transparentes, ninguém percebia minha angústia! E eu, desejando ser uma funcionária competente, fiz o que me foi determinado. Só depois de tudo pronto, pude relaxar e... pensar. Comecei, então, a compreender que se tratara de um golpe. Meu chefe estava roubando o patrão e eu o ajudara. Entrei em desespero, mas não comuniquei minha desconfiança no escritório. Eu não estava envolvida diretamente, mas fui eu quem passou as notas, portanto, poderia ser presa ou processada futuramente, quem sabe?
Durante a semana toda, fiquei pensativa e tentava encontrar uma saída para aquela situação. Meu chefe continuava com a transação estranha e de longe, gritava comigo ao telefone, me dando ordens. Inescrupuloso, asqueroso, eu o odiava, mas precisava trabalhar. Talvez seu jeito de ser fosse uma escapatória, já que vociferando, os empregados não questionavam seus atos, apenas acatavam. Mas, eu não sou assim, e quando ele chegou, juntamente com outros colegas, resolvi desabafar com um deles, na tentativa de que me salvasse. No entanto, para minha surpresa, recebi de volta uma pergunta: "Como você descobriu, se fizemos tudo tão perfeito?" Fiquei parada, sem reação, durante alguns minutos. Pensei em denunciar, em me demitir, em xingar meu chefe, mas por sorte não precisei tomar nenhuma providência radical. Apesar da oferta, o cliente não a aceitou e os funcionários corruptos ficaram sem aquele dinheiro. Foi um aprendizado para mim.
Alguns meses depois saí da empresa e hoje ela não existe mais. Depois deste episódio, passei a ser ainda mais desconfiada, e meu conceito de amizade degringolou também. Entendi que o dinheiro compra quase tudo, mas em relação a isso, mudei muito pouco. Sou consumista, adoro comprar e gastar, mas com meus rendimentos. Fui criada com a ideia de que só pertence a mim o que me foi dado, ou conquistado, jamais roubado. Salva pelo gongo uma vez, jamais arrisco a segunda. A consciência limpa, sem culpas, é simplório, mas também dá prazer, tranquilidade. E isso, nenhuma fortuna paga!

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