quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Aquela rua, quantas lembranças!!!

Nossa rua: Marcelo, primeiro à esquerda.


Algumas pessoas entram em nossas vidas e se tornam inesquecíveis. Foi assim com Marcelo, um menino que conheci aos onze anos, vizinho da casa onde acabara de me mudar com minha família. Me encantei por aqueles olhos verdes, escondidos em óculos de aros de tartaruga, e pelo sorriso que provocava covinhas no alto de suas bochechas. Para ficar mais tempo perto do Marcelo, eu saía correndo da escola e o esperava embaixo do flamboyant que ficava entre as nossas casas. E, juntos, ficávamos conversando e brincando até a noite. Mas, como era mais novo do que eu, amadureci mais rápido do que ele, e meu primeiro beijo foi com outro menino. Nosso romance só aconteceu muitos anos depois, quando eu já estava na adolescência. Mesmo assim, a paixão foi intensa e deveria ter durado a vida toda, se o destino não tivesse desfavorecido nosso romance.
Aos 18 anos, me mudei daquela rua e na noite anterior, eu e Marcelo nos despedimos com muitos beijos. Misteriosamente, daquela vez, o pai dele não o chamou com um assobio forte, como fizera todos os anos em que morei ali. Foi uma despedida alegre, mas dolorida. Pela primeira vez nós dois, e todos os adolescentes da rua, fomos dormir de madrugada. Era como se o tempo parasse para nos despedirmos. Naquela época não havia celular e eu não tinha telefone em casa. Para vê-lo, eu retornava à antiga rua, quase toda semana, com a desculpa de buscar correspondências. Até que comecei a namorar sério com outro rapaz e ele ficou sabendo. Ao recebê-lo em minha casa, recusei seu beijo, alegando que meu namorado estava a caminho. Se eu soubesse que aquele seria o último, teria agido diferente.
Parece que a natureza luta contra a nossa felicidade em alguns momentos, e na juventude, tudo se torna grandioso, e as perdas, de difícil entendimento. Quatro meses depois, Marcelo morreu num acidente de carro, no auge da juventude. Nossa despedida, agora, seria para sempre, sem direito a pelo menos, um abraço! Durante seu enterro, uma moça chorava embaixo de uma árvore, abraçada à uma bolsa de crochê que ele costumava carregar. Eu não lhe disse nada, não lhe abracei. Apenas a observei, à distância, buscando em sua fisionomia, alguma semelhança entre nós duas. Ela era totalmente diferente de mim, fisicamente e, pela primeira vez, senti ciúmes do Marcelo. Foi o que ele sentiu, provavelmente, ao me ver com outra pessoa. E tive ódio de mim!
Durante muito tempo, eu sonhei com o Marcelo, depois que ele se foi. Sempre sorridente, me dizia para ser feliz, que estava bem. Depois da tragédia, voltei poucas vezes àquela rua, onde fui tão feliz. Ali cresci, fiz grandes amizades e me apaixonei perdidamente. Mas, cada pedacinho daquele local me faz sofrer. Por mais que amemos outras pessoas, cada romance é diferente, único. Não se ama todos de uma mesma maneira. Eu e o Marcelo crescemos juntos, tivemos uma convivência por muitos anos, mas o destino quis nossa separação. Mas, precisava ser tão abrupta? Um amor assim não se esquece. Apenas deixa de lado, guardado num cantinho do cérebro. Não para sofrer, mas para relembrar, só para relembrar!!!


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Beijos,

Carla Vilaça