segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Um amor da juventude!




Colegas da Escola Henrique Diniz (estou escondida atrás do japonês) 
 
Eu sempre sonhei com o amor, desde muito nova. No entanto, ao contrário do que previ, custei a ter o meu primeiro namorado e quando isso aconteceu, minhas amigas já eram experientes no assunto. Meu primeiro beijo aconteceu aos 14 anos e foi de supetão com um garoto da escola, com nome de presidente da República. Com dois anos de diferença era da oitava série, enquanto eu estava na quinta ou sexta, já não me lembro mais. Mas não esqueço que me apaixonei quando o vi de mãos dadas com outra menina, da sala dele. Era tão ousada que me causava inveja. Com um corpo perfeito, dentro de uma calça azul-marinho e blusa branca, tinha ainda os cabelos pretos e longos que acompanhavam seu requebrado. Mulher em flor, era a personificação da Lady Godiva e tanta sedução me deixava em posição desfavorável. E eu, então, me recolhia diante da impossibilidade de um dia aquele garoto se interessar por mim. Mais parecida com rapazinho, eu não tinha curvas, nem beleza, nem charme. 
No entanto, a vida dá voltas e dois anos depois virei um mulherão, crescendo mais para os lados do que para cima. Meus quadris se alargaram e minha cintura afinou em poucos meses. Do manequim 36 pulei para o 40 e passei a usar sutiãs e calças justas ao corpo. Uma sensação de tirar o fôlego. Era como se uma fada madrinha me desse direito à realização dos meus desejos, numa noite longa. E não tardou para que eu passasse a usar as armas femininas para atrair meus pretendentes. Com uma saia vermelha estilo rabo-de-peixe, calça jeans e camiseta branca, eu passava em frente à casa do meu amado. todos os dias, apenas para visitar uma colega de escola. E fiz amizades com outras meninas, vizinhas dele, para que pudesse acompanhar, de longe, sua subida pelas escadarias. 
Mas foi numa Feira de Ciências que nossos olhares se encontraram pela primeira vez. Com um feto num vidro, ele fez piada com o suposto pai da criança e fiquei ainda mais apaixonada. Ao sair daquela exposição, deu seu famoso sorriso, mostrando que além de bonito era divertido. Ai, como eu suspirava ao vê-lo! Apaixonada, à distância, eu o via no recreio e participava de festividades apenas para encontrá-lo e tê-lo por perto, como nos ensaios da Festa Junina de 80 quando ele fazia um sinal com as mãos, um gesto da  época, que significava sexo. Também fui ao clube Oásis, quando pela primeira vez fui sedutora e atravessei, de biquíni branco, o gramado do campo de futebol, parando o jogo em que ele participava com os amigos. 
Eu nunca poderia imaginar, embora sonhasse, que um dia iríamos namorar. E o pior: que eu detestaria ser beijada por ele e o término da relação se daria por mim. Tudo aconteceu muito rápido. Os amigos, ao saber da minha paixão, avisaram o garoto e ele apareceu na minha rua, de bicicleta. Morávamos no mesmo bairro e ele quis impressionar. Fomos deixados à sós e o beijo aconteceu. Não foi o que imaginei e em nada se parecia com os filmes que eu costumava assistir na TV. Havia muita baba e gosto de saliva. Credo. Não consegui fazer a ligação entre romance e realidade e me dei conta de que o nojo sobressaia ao amor. Esse não foi apenas o motivo para fim daquele namoro, mas foi um dos mais fortes. Na semana seguinte, embaixo de um flamboyant eu fui sincera e disse que o achava sem-vergonha. A ofensa causou-lhe profunda mágoa e ele desapareceu. Só o vi uma única vez alguns meses depois e não soube mais da sua vida. 
Sempre que estou sozinha (digo, a respeito de amor), me lembro das paixões antigas e isso me faz um bem enorme. Tenho o costume também de ler cartas antigas, que ainda guardo numa enorme sacola com fecho. Já encardidos pelo tempo, elas me trazem lembranças e me remetem a um passado longínquo, mas que parece tão presente. E me provocam saudades. Sobretudo do que não vivi. A juventude não permite a degustação das sensações porque há uma ganância pela vivência, sem promessas para o futuro. É preciso viver muito, gastar todas as emoções de uma única vez. Com o passar dos anos essa ansiedade diminui e nos permite mais calma nos romances e nas amizades. É uma fase diferente, onde o olhar está menos carregado de ilusões. E assim, desprovida de qualquer desejo, é que me permito observar o passado, transcrito com mãos letras trêmulas à alguém que um dia teve tanta importância no meu coração. Mas, assim como veio, foi-se. Não deixou amor, mas restou a saudade. 


Um beijo cheio de amor.



sábado, 10 de fevereiro de 2018

A beleza que vem da alma!




A beleza natural é uma espécie de prêmio, concedido por Afrodite (https://pt.wikipedia.org/wiki/Afrodite)a poucos afortunados. Não há o que questionar, se um rosto não apresenta defeitos ou se um corpo nos enche de admiração pelos traços bem feitos. O privilégio é ainda maior quando tudo se apresenta numa única pessoa, o que não é muito comum. Afinal, todos nós somos um pouco como o pavão, que esconde os pés, horríveis, ao abrir suas asas lindas, quando deseja impressionar. Entre nós, humanos, não há perfeição,  porque, muitas vezes, uma pessoa belíssima pode se tornar horrível por seus gestos com o outro.  E o contrário também pode acontecer. É possível que alguém se torne bonito aos nossos olhos, quando ele se mostra generoso, educado e charmoso.
Mas, a beleza é efêmera e não resiste ao tempo. Por mais que os cosméticos e plásticas dêem uma aliviada, é impossível a falta de rugas. Você vai me dizer que algumas personalidades, como as atrizes Bruna Lombardi e Vera Fischer, continuam lindas apesar da idade. Sim, são ótimos exemplos, mas os cabelos brancos, com certeza são pintados e a pele do rosto foi esticada, nem que seja um pouquinho, pelas mãos de cirurgiões fantásticos. Mas, não é assim para simples mortais como eu e você, por exemplo. Sem contar que nosso cotidiano é bem mais comum do que a vida de celebridades que vieram ao mundo à passeio. Pegando transporte público, sem luxos e mordomias, não sobrevivemos à tantas décadas como se tivéssemos 20 anos de idade. As dificuldades parecem que tiram a vitalidade e cansam nossa alma. Nem sempre temos a oportunidae de aventuras amorosas ou viagens nas férias. Temos, sim contas a pagar, acordar muito cedo e comer rápido o que se consegue, dada a quantidade de tarefas diárias.
No início da minha carreira como professora, tive uma aluna que chamava a atenção pela beleza e simpatia. Aos 8 anos de idade, com olhos azuis-escuros e cabelos longos castanhos, ela era a versão morena da atriz Maitê Proença, um sucesso da época. Com tantos atributos, era certeza de que seu futuro seria maravilhoso, com todas as portas abertas para que alcançasse o sucesso. Mas, não foi bem assim. Uma década depois, trabalhando num supermercado como demonstradora de produtos, a encontrei numa situação difícil. Estava à procura de um emprego e me pediu indicação. Conversamos rapidamente, ela se despediu com um aceno frio e nunca mais soube de sua vida. 
Depois de tantos anos, me lembrei da Ana Carolina hoje cedo. Talvez ela tenha se lembrado de mim também e, num cruzamento de pensamentos e lembranças, partisse para um balanço, como o que faço agora. Naquele encontro não reparei em sua beleza porque ela já não existia. O brilho no olhar dera lugar à tristeza  e os cabelos, sempre sedosos, estavam presos num rabo-de-cavalo. Mas, o que mais me chamou a atenção foi a falta do sorriso largo daquela garota. Eu não tinha visto dentes tão brancos e naquele dia eles mal apareceram durante nossa conversa. Havia algo que não batia com o corpo e o rosto daquela jovem, que um dia fôra objeto de disputa entre os meninos da escola e motivo de inveja das alunas. Não tive tempo de saber. Ela estava muito apressada em busca de um emprego que garantisse o pagamento de suas contas.
A beleza é uma dádiva e pode abrir portas numa sociedade que valoriza o ter mas, ela não é o suficiente para garantir boas chances no mercado de trabalho. Minha ex-aluna, mais bonita e mais jovem do que eu, passava por momentos difíceis e via, naquele momento, o mundo cinzento. Sua vaidade dava lugar ao desânimo e à descrença e não há rosto bonito que suporte tantas decepções. Carol não precisou de muitas palavras para esboçar seus pensamentos. Estava tudo escrito em seus olhos. Os mesmos olhos azuis-escuros, que um dia me causaram tanta admiração, estavam rodeados de olheiras. Opacos, não transmitiam mais a luz que, na meninice, representavam sua alma. Por um dia, naquele dia, me senti mais bonita do que aquela menina.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A inocência e a covardia!

Eu sou viciada em leitura, e um dos livros que mais me marcaram, na vida, foi "Papillon", de Henri Charrie, autor francês, cuja obra inspirou um filme americano, com o mesmo título. Embora minha memória seja um pouco fraca, nunca me esqueci de tantos ensinamentos daquelas páginas, que faço uso até hoje. Entre elas, uma passagem em que o autor se decepciona ao pegar carona com três freiras e contar-lhes que guardava pérolas num saco de pano. Elas lhe deram abrigo, no convento, e ao acordar, além de ter sido denunciado à policia pelas religiosas, elas ainda o roubaram. É assim mesmo. A confiança que às vezes depositamos em pessoas, aparentemente inofensivas, pode ser desastrosa. Assim como Charrier, também me decepcionei várias vezes, acreditando que a farda, o hábito ou um jaleco, são garantias de segurança.
Na faculdade, eu tive uma séria depressão, e desabei a chorar quando recebi uma nota baixíssima de uma disciplina. Acabei me desabafando com a professora, que se mostrou atenciosa e carinhosa. Ela chegou a me abraçar e a pegar na minha mão oferecendo ajuda, e assim o fez, até que ao final do semestre veio a bomba: ela me reprovou, depois de todo o meu histórico desnudado, sem pudor, para aquela docente. Com cara de assustada - e a dela de prazer - eu não acreditava no que fizera comigo. Não era possível que tivesse sido tão falsa durante todo aquele tempo. Cheguei a lhe pedir satisfação, mas ouvi o que não desejei e chorei o restante em casa.
No semestre seguinte tranquei a matrícula e fiquei quase um ano sem estudar, cuidando apenas da saúde emocional. Fiz terapia, consegui um emprego e voltei para a faculdade, quando todos pensavam que eu jamais retornaria. Fortalecida, fiz questão de escolher outra professora para a tal disciplina e prometi ser mais discreta e desconfiada. O risco de se encontrar com pessoas traiçoeiras e muito grande. Porém, a nova professora já sabia da minha história, através de alguns alunos, e prometeu uma ajuda psicológica e pedagógica, que me foram de grande valia. Poucas vezes conversamos, mas seu jeito de ensinar não deixava dúvidas de seu respeito por mim.
Me formei em 2006 e antes de deixar a faculdade, agradeci toda a atenção da professora Dulce comigo. Quanto à outra docente, faço questão de esquecê-la. Mas não tem como apagar da memória as suas aulas chatíssimas, as nossas conversas em que me abri demais, e a decepção que tive com ela. Meiga por fora, e ruim por dentro, ela é a personificação das freiras malvadas do Henri Charrier. Ela sabia que eu tinha pérolas guardadas. E foi desrespeitosa com o meu segredo. Me expôs e pediu a minha "prisão". É exatamente assim que fazem os covardes!

Ótimo final de semana. Beijos,

Carla Vilaça

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Idiota, vá pro quinto dos infernos!!!

Ontem de madrugada, ao checar meus e-mails, vi um que se destacou, de cara, pela falta de elegância e de educação. Nele, um internauta me chamava de vagabunda e me mandava aprender a escrever (https://olharfeminista.blogspot.com.br/2017/08/a-mulher-e-midia.html). Inicialmente, pensei numa resposta simpática, mas por fim decidi ser tão grosseira quanto ele, aproveitando ainda para sugerir que voltasse a frequentar a escola, pois a erros de gramática e de pontuação indicavam que não frequentava as aulas havia muito tempo. Diante disso, ele acabou me bloqueando, mas não antes de criticá-lo a respeito do site que fez, e que fôra excluído pelo Google, provavelmente pelo péssimo conteúdo de cunho religioso, de acordo com o endereço que permitiu seu acesso para comentários. 
Fazer críticas de forma anônima foi a encontrada pelo rapaz para agredir uma mulher que luta pelos direitos através da internet. Sem identificação fica fácil ser covarde. É exatamente assim que agem os marmanjos que espancam mulheres, matam gatinhos indefesos ou crianças inocentes, mas não são capazes de enfrentar homens maiores do que eles. São idiotas, que se escondem através da impunidade para perseguir, coagir, constranger e  fazer ameaças. Graças à injustiça, continuam com suas imbecilidades dentro de casa, sentindo um profundo prazer em fazer o outro sofrer. Tipos como ele são fracos e precisam, através de escudos imaginários, mostrar sua força para continuarem no "poder". São exatamente estes que, uma vez na prisão, se tornam vítimas de outros brutamontes, que fazem com seus corpos o que eles fizeram com suas vítimas aqui fora.
Trata-se da falsa moral, imposta pelos presos, que vêem nas mulheres maltratadas, humilhadas e espancadas, torturadas ou mortas, suas mães, irmãs, filhas ou cunhadas. São imperdoáveis. E também este é um dos motivos pelos quais que as mulheres não denunciam o homem que amam, porque têm medo que eles se tornem mocinhas nas mãos dos bandidos, caso sejam presos. É uma sensibilidade que pode custar uma vida, pois no momento do crime, o marido agressor não tem medo do que possa lhe acontecer. Pensa apenas em ser obedecido e não tolera desobediência.
Fico pensando como um homem perde tempo agredindo com palavras uma pessoa que não conhece, como esse rapaz fez comigo. Talvez ele pensasse que eu pediria desculpas pelo que escrevi, mas coloquei-o em seu lugar. Sugeri ainda que procurasse Deus, pois de acordo com o nome do site que fez, ao que parece tem como ídolo o diabo (sim, com letra minúscula, porque não admito que sequer um ser imaginário tão horrível possa ser digno de uma inicial maiúscula), o "coisa ruim", ou outros nomes terríveis para o inimigo do Pai. Não sou muito religiosa, apesar de não parecer nesta minha indignação, mas já que o rapaz foi tão ofensivo, não merece meu respeito: que ele vá para o quinto dos infernos! 




"Qual a sua história, mamãe?"


Meu inglês é precário, mas vou cantarolando músicas estrangeiras no carro, fingindo traduzi-las para o meu filho, até chegarmos à escola dele. E, assim vamos nos divertindo com as palavras cognatas (parecidas com as brasileiras), já que não sei a tradução da maioria delas. Quando me animo com a canção do Bruno Mars, explicando que “auuuuuuhhhh” quer dizer isso mesmo, caímos na risada. E continuo o percurso, "traduzindo" as canções: "I love you: amo muito você"! E depois: I believe angels. Viu, Edu? Significa que a moça acredita em anjos e a mamãe também...
Sou mais criança do que o meu filho de oito anos e ele sabe disso. Ás vezes me chama a atenção por não ser tão séria quanto as mães dos colegas dele, mas ao dormir, diz que ama e me agradece por respeitar o gosto dele por funk. Fazer o quê? Estilo musical é uma particularidade. Na idade dele eu amava Roberto Carlos e cantores antigos, dos tempos dos meus avós, e ninguém sabia porque tive um encantamento incomum para uma menina que ainda aprendia músicas folclóricas, como o sapo-cururu e atirei-o-pau-no-gato.
Mas, hoje uma pausa no CD fez o Edu me perguntar sobre a minha vida pregressa. Revelou que vai morar sozinho, aos 18 anos, que será rico e que não sabe quantos filhos terá. E sugeriu que nos mudássemos para os Estados Unidos, “onde se fala inglês”, e que lá eu poderia ser mais feliz. Continuei dirigindo, me questionando onde ele aprendeu a fazer tantas perguntas embaraçosas, mas no fundo sei que saiu à mim. E chorei sem o meu filho ver. Como ele percebeu que não estou satisfeita com a vida de solteira? Como sabe que tive um amor que mora fora do Brasil? “Papai me contou, mãe” – revelou-me.
Assim como as mães sabem tudo sobre os filhos, sem que eles digam, os rebentos conhecem a respeito de suas matriarcas, mesmo que elas guardem segredos a sete chaves (embora eu não guarde nem com fita de cetim). Ao me perguntar sobre a minha história, Eduardo já sabia mas, quis apenas a confirmação de que ao lado do pai dele eu era mais alegre. Confirmei que ainda amo meu ex-marido, que me arrependi da separação, mas que vou dar a volta por cima, pois era apenas uma situação recente, palavra que gerou novas explicações ao meu filhote, que está crescendo rápido demais.
O divórcio não me fez uma mulher mais feliz. Ao contrário, me deixou intranquila e insatisfeita, mas não há volta. A escolha foi minha e hoje fico imaginando como alguém pode se separar do marido e voltar a ter vida normal. Desde pequena meu sonho era me casar e ter muitos filhos e foi para isso que me preparei. Mas, não foi do jeito que imaginei. A decisão foi apenas uma das muitas que tomei de forma equivocada durante toda a minha existência. Antes eu não estava feliz e hoje estou sozinha. Mas não é a solidão do abandono, mas da falta de toque, de amor, de carinho. Não quero voltar para meu ex-marido. É apenas um desabafo, enquanto seu lugar não é ocupado por outro, em meu coração!

Beijos,
Carla Vilaça