terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Agora prove do seu veneno, covarde!

Há alguns anos conheci um cara por quem acabei me apaixonando perdidamente. Ele não era bonito, mas sensual, risonho, carinhoso, atencioso, alegre e inteligente, qualidades muito importantes num relacionamento. E fiz planos, incluindo-o em minha vida. Em pouco tempo nos casamos, tivemos filhos e viajamos pelo mundo, registrando cada momento e expondo nossa felicidade nas redes sociais, como os jovens fazem hoje em dia. Nossos familiares se tornaram amigos e as noitadas, em casa ou na rua, eram regadas a carinhos e muito beijo na boca. Tudo Ilusão. Devaneios. Tivemos apenas um encontro, na verdade. E não foi ótimo. Foi no mínimo simples, muito aquém da propaganda que ele fazia de si mesmo. Mais uma perda de tempo em minha vida. E chorei. De raiva. Fantasiei uma pessoa que não existe, romanceei, sonhei apenas.
A decepção veio de supetão, quando na academia, fingiu não me ver, despistando ao celular. Ao se aproximar, me deu um beijo no rosto e saiu, me deixando sem entender aquela situação. Nosso caso não havia obrigações nem horário marcado, mas o respeito era primordial. Nossas conversas eram deliciosas, até que o romance começou a ter ares de compromisso. Mas não precisa ser grosseiro. Somos adultos e um fim educado me faria menos mal do que o desprezo. Não era preciso encenação. Foi covardia. Impossível disfarçar tamanha falta de graça. E então, fui embora daquele lugar, deletei seu telefone e prometi desdenhá-lo da próxima vez que o encontrasse. A chance veio na velocidade da luz.
Hoje cedo, depois de muitos anos, nos encontramos num supermercado, sem querer, quando eu escolhia iogurtes. Quando me chamou, pensei tratar-se de um funcionário se desculpando pelas bandejas mal colocadas nas prateleiras. Para meu espanto, era ele. Estava à minha frente, engravatado, comprando lanches para o recreio da faculdade. Após o choque da surpresa, explicamos sobre as rotinas atuais e conversamos como velhos amigos. Não escondi meu espanto pela coincidência daquele encontro e desconfiei que fôra planejado. Durante a rápida conversa fiquei observando aquele homem que um dia me enlouqueceu de desejo. Já sem a emoção de antes, pude perceber que tantos atributos físicos não passavam da minha imaginação.
Mais uma vez criei um homem que não existe. Foi preciso que o tempo corresse para que eu tomasse consciência de que aquele cara não tinha nada de especial. Ao contrário dos tempos de academia, seus músculos estavam escondidos dentro da camisa social e em nenhum momento me despertou o interesse de vê-los. Depois de tantos anos fui eu quem não quis nada. Assim, o desdenhei como os calhordas fazem. Exatamente como ele fez comigo no passado.
No carro, a música romântica me fez reviver a nossa história curta mas, intensa. Na garagem, permaneci por alguns momentos antes de pegar as compras e entrar. O romance antigo, agora se mostrava sem calor. Foi um expurgo. Por cima da carne seca. Como antes planejei. Uma despedida à altura do que ele me fez, pago com a mesma moeda com que um dia ele se livrou de mim. Foi o veneno que, naquela tarde, ele me deu para tomar. Guardado por tanto tempo, estava curtido e ainda mais amargo do que naquele dia. Com certeza deve ter sentido o gosto da humilhação. E tentado sobreviver à bebida que ele mesmo preparou para mim. Enfim, está morto!


Beijos

Carla Vilaça


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

até os beijos mudaram!




Sempre fui atrasada em questões do amor e meu primeiro beijo aconteceu aos 14 anos, quando minhas amigas já estavam experientes no assunto. E foram elas que me mostraram o que fazer quando "o momento chegasse". Após as instruções, eu ensaiava no espelho e observava cada ângulo do meu rosto para não fazer feio diante do rapaz. Mas, apesar dos ensaios, não foi o que esperei. O tão sonhado encontro de lábios, na verdade, me causou nojo e constrangimento. Decepcionada, após cada beijo, eu corria para escovar os dentes, me perguntando o porquê daquilo tudo. Seria mais fácil se já nascêssemos sabendo beijar.
Em resposta aos meus questionamentos, minhas amigas, práticas e emancipadas, me alertavam que, no futuro, eu até sentiria falta dos beijos e que o início de tudo é sempre muito ruim. E segui assim, acreditando que um dia os toques labiais, e linguais, me fariam feliz. Alguns meses depois, eu já estava de namorado novo. Um relacionamento rápido, como vários que se seguiram. Mas, ainda não era tão bom. Faltava alguma coisa. Eu não conseguia juntar emoção, beijos, abraços e palavras românticas. É muita coordenação de uma vez só e meu cérebro não conseguia anexar tudo ao mesmo tempo. 
Não demorou para a confirmação da fala das minhas amigas. Nas festinhas corriqueiras eu sempre acabava beijando alguém, para assim, ter experiência. Por enquanto fui aprendendo apenas a técnica, passando ao segundo módulo, o das emoções. Somente ao final do curso é que nos era permitido toques mais íntimos, o que no meu caso demorou ainda mais, evidentemente. Na turma de amigos eu era conhecida como "A Difícil" e os meninos chegaram a fazer uma aposta para saber quem me beijaria primeiro. Nenhum deles ganhou a caixa de cerveja que seria sorteada.
Hoje os tempos mudaram e os beijos já não causam pavor. As garotas ultrapassam as etapas e muitas vezes, partem logo para o sexo. Mas, na minha adolescência, ser beijada ou despertar o interesse de algum rapaz, era como se fosse um prêmio. E o romance, que começava com uma música lenta, terminava com beijos escondidos dos pais e raramente dava em namoro. Como acontece atualmente, também não queríamos compromisso na juventude. A ideia de casamento nos causava pânico. No entanto, fomos aprendendo a usar o nosso cronômetro, que apitava ao menor sinal de avanço dos rapazes. Hoje se pode tudo. Não há tempo a esperar. Os beijos continuam os mesmos, mas se tornaram banais. Falta hoje, o que sobrava no passado: a ansiedade, a espera e a surpresa, elementos cruciais para o aflorar das emoções.

Um beijo.



sábado, 10 de fevereiro de 2018

A beleza que vem da alma!




A beleza natural é uma espécie de prêmio, concedido por Afrodite (https://pt.wikipedia.org/wiki/Afrodite)a poucos afortunados. Não há o que questionar, se um rosto não apresenta defeitos ou se um corpo nos enche de admiração pelos traços bem feitos. O privilégio é ainda maior quando tudo se apresenta numa única pessoa, o que não é muito comum. Afinal, todos nós somos um pouco como o pavão, que esconde os pés, horríveis, ao abrir suas asas lindas, quando deseja impressionar. Entre nós, humanos, não há perfeição,  porque, muitas vezes, uma pessoa belíssima pode se tornar horrível por seus gestos com o outro.  E o contrário também pode acontecer. É possível que alguém se torne bonito aos nossos olhos, quando ele se mostra generoso, educado e charmoso.
Mas, a beleza é efêmera e não resiste ao tempo. Por mais que os cosméticos e plásticas dêem uma aliviada, é impossível a falta de rugas. Você vai me dizer que algumas personalidades, como as atrizes Bruna Lombardi e Vera Fischer, continuam lindas apesar da idade. Sim, são ótimos exemplos, mas os cabelos brancos, com certeza são pintados e a pele do rosto foi esticada, nem que seja um pouquinho, pelas mãos de cirurgiões fantásticos. Mas, não é assim para simples mortais como eu e você, por exemplo. Sem contar que nosso cotidiano é bem mais comum do que a vida de celebridades que vieram ao mundo à passeio. Pegando transporte público, sem luxos e mordomias, não sobrevivemos à tantas décadas como se tivéssemos 20 anos de idade. As dificuldades parecem que tiram a vitalidade e cansam nossa alma. Nem sempre temos a oportunidae de aventuras amorosas ou viagens nas férias. Temos, sim contas a pagar, acordar muito cedo e comer rápido o que se consegue, dada a quantidade de tarefas diárias.
No início da minha carreira como professora, tive uma aluna que chamava a atenção pela beleza e simpatia. Aos 8 anos de idade, com olhos azuis-escuros e cabelos longos castanhos, ela era a versão morena da atriz Maitê Proença, um sucesso da época. Com tantos atributos, era certeza de que seu futuro seria maravilhoso, com todas as portas abertas para que alcançasse o sucesso. Mas, não foi bem assim. Uma década depois, trabalhando num supermercado como demonstradora de produtos, a encontrei numa situação difícil. Estava à procura de um emprego e me pediu indicação. Conversamos rapidamente, ela se despediu com um aceno frio e nunca mais soube de sua vida. 
Depois de tantos anos, me lembrei da Ana Carolina hoje cedo. Talvez ela tenha se lembrado de mim também e, num cruzamento de pensamentos e lembranças, partisse para um balanço, como o que faço agora. Naquele encontro não reparei em sua beleza porque ela já não existia. O brilho no olhar dera lugar à tristeza  e os cabelos, sempre sedosos, estavam presos num rabo-de-cavalo. Mas, o que mais me chamou a atenção foi a falta do sorriso largo daquela garota. Eu não tinha visto dentes tão brancos e naquele dia eles mal apareceram durante nossa conversa. Havia algo que não batia com o corpo e o rosto daquela jovem, que um dia fôra objeto de disputa entre os meninos da escola e motivo de inveja das alunas. Não tive tempo de saber. Ela estava muito apressada em busca de um emprego que garantisse o pagamento de suas contas.
A beleza é uma dádiva e pode abrir portas numa sociedade que valoriza o ter mas, ela não é o suficiente para garantir boas chances no mercado de trabalho. Minha ex-aluna, mais bonita e mais jovem do que eu, passava por momentos difíceis e via, naquele momento, o mundo cinzento. Sua vaidade dava lugar ao desânimo e à descrença e não há rosto bonito que suporte tantas decepções. Carol não precisou de muitas palavras para esboçar seus pensamentos. Estava tudo escrito em seus olhos. Os mesmos olhos azuis-escuros, que um dia me causaram tanta admiração, estavam rodeados de olheiras. Opacos, não transmitiam mais a luz que, na meninice, representavam sua alma. Por um dia, naquele dia, me senti mais bonita do que aquela menina.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A inocência e a covardia!

Eu sou viciada em leitura, e um dos livros que mais me marcaram, na vida, foi "Papillon", de Henri Charrie, autor francês, cuja obra inspirou um filme americano, com o mesmo título. Embora minha memória seja um pouco fraca, nunca me esqueci de tantos ensinamentos daquelas páginas, que faço uso até hoje. Entre elas, uma passagem em que o autor se decepciona ao pegar carona com três freiras e contar-lhes que guardava pérolas num saco de pano. Elas lhe deram abrigo, no convento, e ao acordar, além de ter sido denunciado à policia pelas religiosas, elas ainda o roubaram. É assim mesmo. A confiança que às vezes depositamos em pessoas, aparentemente inofensivas, pode ser desastrosa. Assim como Charrier, também me decepcionei várias vezes, acreditando que a farda, o hábito ou um jaleco, são garantias de segurança.
Na faculdade, eu tive uma séria depressão, e desabei a chorar quando recebi uma nota baixíssima de uma disciplina. Acabei me desabafando com a professora, que se mostrou atenciosa e carinhosa. Ela chegou a me abraçar e a pegar na minha mão oferecendo ajuda, e assim o fez, até que ao final do semestre veio a bomba: ela me reprovou, depois de todo o meu histórico desnudado, sem pudor, para aquela docente. Com cara de assustada - e a dela de prazer - eu não acreditava no que fizera comigo. Não era possível que tivesse sido tão falsa durante todo aquele tempo. Cheguei a lhe pedir satisfação, mas ouvi o que não desejei e chorei o restante em casa.
No semestre seguinte tranquei a matrícula e fiquei quase um ano sem estudar, cuidando apenas da saúde emocional. Fiz terapia, consegui um emprego e voltei para a faculdade, quando todos pensavam que eu jamais retornaria. Fortalecida, fiz questão de escolher outra professora para a tal disciplina e prometi ser mais discreta e desconfiada. O risco de se encontrar com pessoas traiçoeiras e muito grande. Porém, a nova professora já sabia da minha história, através de alguns alunos, e prometeu uma ajuda psicológica e pedagógica, que me foram de grande valia. Poucas vezes conversamos, mas seu jeito de ensinar não deixava dúvidas de seu respeito por mim.
Me formei em 2006 e antes de deixar a faculdade, agradeci toda a atenção da professora Dulce comigo. Quanto à outra docente, faço questão de esquecê-la. Mas não tem como apagar da memória as suas aulas chatíssimas, as nossas conversas em que me abri demais, e a decepção que tive com ela. Meiga por fora, e ruim por dentro, ela é a personificação das freiras malvadas do Henri Charrier. Ela sabia que eu tinha pérolas guardadas. E foi desrespeitosa com o meu segredo. Me expôs e pediu a minha "prisão". É exatamente assim que fazem os covardes!

Ótimo final de semana. Beijos,

Carla Vilaça

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Idiota, vá pro quinto dos infernos!!!

Ontem de madrugada, ao checar meus e-mails, vi um que se destacou, de cara, pela falta de elegância e de educação. Nele, um internauta me chamava de vagabunda e me mandava aprender a escrever (https://olharfeminista.blogspot.com.br/2017/08/a-mulher-e-midia.html). Inicialmente, pensei numa resposta simpática, mas por fim decidi ser tão grosseira quanto ele, aproveitando ainda para sugerir que voltasse a frequentar a escola, pois a erros de gramática e de pontuação indicavam que não frequentava as aulas havia muito tempo. Diante disso, ele acabou me bloqueando, mas não antes de criticá-lo a respeito do site que fez, e que fôra excluído pelo Google, provavelmente pelo péssimo conteúdo de cunho religioso, de acordo com o endereço que permitiu seu acesso para comentários. 
Fazer críticas de forma anônima foi a encontrada pelo rapaz para agredir uma mulher que luta pelos direitos através da internet. Sem identificação fica fácil ser covarde. É exatamente assim que agem os marmanjos que espancam mulheres, matam gatinhos indefesos ou crianças inocentes, mas não são capazes de enfrentar homens maiores do que eles. São idiotas, que se escondem através da impunidade para perseguir, coagir, constranger e  fazer ameaças. Graças à injustiça, continuam com suas imbecilidades dentro de casa, sentindo um profundo prazer em fazer o outro sofrer. Tipos como ele são fracos e precisam, através de escudos imaginários, mostrar sua força para continuarem no "poder". São exatamente estes que, uma vez na prisão, se tornam vítimas de outros brutamontes, que fazem com seus corpos o que eles fizeram com suas vítimas aqui fora.
Trata-se da falsa moral, imposta pelos presos, que vêem nas mulheres maltratadas, humilhadas e espancadas, torturadas ou mortas, suas mães, irmãs, filhas ou cunhadas. São imperdoáveis. E também este é um dos motivos pelos quais que as mulheres não denunciam o homem que amam, porque têm medo que eles se tornem mocinhas nas mãos dos bandidos, caso sejam presos. É uma sensibilidade que pode custar uma vida, pois no momento do crime, o marido agressor não tem medo do que possa lhe acontecer. Pensa apenas em ser obedecido e não tolera desobediência.
Fico pensando como um homem perde tempo agredindo com palavras uma pessoa que não conhece, como esse rapaz fez comigo. Talvez ele pensasse que eu pediria desculpas pelo que escrevi, mas coloquei-o em seu lugar. Sugeri ainda que procurasse Deus, pois de acordo com o nome do site que fez, ao que parece tem como ídolo o diabo (sim, com letra minúscula, porque não admito que sequer um ser imaginário tão horrível possa ser digno de uma inicial maiúscula), o "coisa ruim", ou outros nomes terríveis para o inimigo do Pai. Não sou muito religiosa, apesar de não parecer nesta minha indignação, mas já que o rapaz foi tão ofensivo, não merece meu respeito: que ele vá para o quinto dos infernos!