quinta-feira, 18 de maio de 2017

Me diga que sou linda???

Arrumar a casa não é uma tarefa das mais prazerosas nem das mais fáceis. É cansativo, desgastante, e repetitivo, porque não há um fim na sujeira que produzimos diariamente. E os serviços geralmente são muito pesados, o que significa que é preciso ter disposição e tempo para a arrumação. E, como nós, mulheres, somos muito detalhistas, costumamos dividir as tarefas por dias da semana para que a limpeza seja completa. Eu não sou apaixonada por faxina mas não há quem faça o serviço de casa para mim e portanto, não tenho escapatória. Quando eu era casada, de vez em quando meu ex-marido me ajudava lavando vasilhas ou colocando a roupa para bater na máquina. E depois ia descansar assistindo televisão, enquanto eu ia passar a roupa, arrumar os guarda-roupas e lavar os banheiros. Me irritava vê-lo ali, deitado no sofá, enquanto eu me desdobrava para dar conta de tudo.
Era esse um dos motivos das nossas brigas e muitas vezes, deixei tudo pelo meio do caminho e saí, com raiva do machismo do Humberto, que acreditava que as mulheres tinham a obrigação pelos afazeres domésticos. Não adiantava conversar. Nossos pensamentos não se combinavam e passamos, então, cada qual cuidando de seu próprio guarda-roupas e por fim, fomos dormir em quartos separados. Dessa separação de corpos nasceu a ideia do divórcio e fui eu a tomar a iniciativa, já que ele não queria sair de casa. Já sem conversarmos há muito tempo, nos despedimos com um abraço, ele me desejando boa sorte na minha nova empreitada, e eu fingindo que estava tudo bem.
Mas, apesar de doloroso, o divórcio me fez bem. Estou ainda mais segura de mim, tive que aprender a pagar as contas com código de barras (sou das antigas e era meu ex-marido que fazia isso), e o mais importante: não posso culpar ninguém pela casa bagunçada, a não ser eu mesma. Como o apartamento em que estou morando é menor, num único dia termino a limpeza e ainda dá tempo para ver TV, exatamente como o Humberto fazia. No mês passado fui visitá-lo e percebi que não há tanta limpeza como ele exigia, ou seja, o mandonismo perdeu a graça. Se antes meu ex-marido tinha alguém para xingar e culpar pela falta de faxina, hoje isso depende dele, que ao que parece, não está muito preocupado com isso.
Em compensação, a casa em que estou morando vive arrumada e limpa, a não ser por conta do meu filho que ainda é pequeno e muito bagunceiro. Consegui organizar os papéis e roupas e a cada semana faço uma limpeza mais profunda. Não sei se um dia me casarei novamente, aliás acho pouco provável que isso aconteça, mas se ocorrer de juntar novamente as escovas de dentes com outro homem, serei mais firme, colocando desde o início as responsabilidades dos dois num quadro de avisos. O primeiro item seria: a casa pertence ao casal, portanto, os dois devem mantê-la limpa. Segundo: mulher não é diferente de homem e os dois têm os mesmos direitos e deveres. O último seria: ao invés de cobrar, faça a sua parte. E não se esqueça: dê um beijo de boa noite em sua mulher e diga à ela o quanto é linda, a admira e a ama! 


Um beijo.

Carla Vilaça

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Só queremos carinho, nada mais!

Os homens são loucos por sexo, certo? Nem sempre. Em muitos casos, eles preferem a satisfação solitária do que dividir a cama com uma mulher. Não me baseio em pesquisas para afirmar isso, nem tenho tanta experiência no assunto, mas esta é uma conclusão informal, tirada de conversas femininas com amigas, cujo assunto principal é a libido masculina (e sua performance sexual, posições, manotas durante a relação, tamanhos de uma coisa e de outra, etc). Nessas rodadas, chamadas também de tricotadas ou mexericos de comadre, entre risadas e teorias baratas, acreditamos que podemos analisar os homens através das relações amorosas que tivemos ou temos, com namorados, ficantes ou maridos.
Fui criada acreditando que todo homem é safado, só pensa naquilo e que usa e abusa da mulher em todos os sentidos. Essa foi a maneira encontrada pela minha mãe para impedir que eu e minhas irmãs caíssemos em armadilhas de algum engraçadinho que pudesse nos engravidar antes do casamento. É um pensamento antigo, mas muito utilizado na minha adolescência pelas matriarcas que davam satisfações aos vizinhos e parentes. Isso mudou bastante, mas a verdade é que as meninas ainda recebem uma criação diferente das ofertadas aos meninos. O bom desta história é que na maioria das vezes me enganei, porque muitos rapazes não eram nada do que imaginei e quando estiveram comigo, desejavam apenas beijar, abraçar e conversar, antes de passar para a segunda fase, a do sexo (que não acontecia, logicamente). Eram o que chamamos de 'Homem prá Casar'. Mesmo assim só me casei depois de curtir muito a minha vida de solteira.
Por outro lado, nossas mães têm razão em nos alertar sobre os tarados disfarçados de galã, capazes de nos enganar com cantadas esdrúxulas, que caímos ao menor sinal de interesse por parte deles, ou do nosso, evidentemente. Com suas lábias doces e garras afiadas, conseguem o que querem e depois vão embora sem pensar nos corações destroçados que deixaram. Não falo da ingenuidade de uma garota, mas me refiro a todo tipo de mulher, de todas as idades que são levadas por promessas que jamais serão cumpridas pelo Don Juan, interessado apenas em conquistar e sentir prazer com qualquer uma que ele encontrar pelo caminho. Quase psicopatas - e alguns o são de fato - sabem agradar porque  conhecem as artimanhas da sedução e sabem como enlouquecer uma mulher na cama.
Em contrapartida, caso o interesse seja da mulher na conquista de um homem, é ela quem corre atrás da vítima, como caçadoras famintas, loucas para transar com aquele que considera seu objeto de prazer. Em muitas situações somos mesmo parecidos, homens e mulheres. Mas, neste caso, o sexo feminino consegue ser, algumas vezes, pior do que o masculino porque ela conhece os sentimentos a fundo, sabe articular muito bem e investigar cada passo do homem desejado e encurralá-lo para que não saia de seus braços. Não se trata de ciúme, mas de obsessão, um desvio de personalidade, talvez, que não me cabe aqui decifrar pela minha falta de conhecimento técnico.
Mas, então tá. Se estamos apenas baseando em experiências particulares, partimos agora para teorias científicas que muitas vezes são usadas em barzinhos como afirmação das ideias. Segundo alguns estudiosos, como o sexólogo Gerson Lopes, ambos, homens e mulheres são idênticos em seus desejos sexuais, mas enquanto ela depende mais da estimulação romântica do que sexual, ele é capaz de permanecer interessado sempre que encontrar alguém com quem já transou, mesmo que esteja em outra relação amorosa. Ou seja, nos ligamos mais em carinho e atenção do que a transa em si.
Voltando para a nossa realidade nua e crua, o que percebemos é que no fundo, no fundo, depende de como os homens recebem a orientação a respeito da mulher, ainda na infância. Ele poderá ser mais carinhoso ou egoísta à medida em que nos compreende e nos conhece. Valorizamos os sentimentos, os elogios, o carinho e o romantismo, a atenção. Para nós, o sexo não vem separado do corpo e da mente, mas é um todo e um item completa o outro. O que precisamos mesmo é de beijo na boca, sorrisos safados e um olhar de admiração, de desejo, de paixão. Não exigimos muito, não somos difíceis. Somos incompreendidas. Deu prá entender, rapazes?


Beijos,

Carla Vilaça

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Quando o destino age sozinho a nosso favor!

Um dos primeiros textos que escrevi no meu blog foi o que mais gerou comentários das leitoras, há alguns anos, e repito aqui, alguns trechos para dar um outro desfecho ao final da história em questão. Trata-se de um romance rápido que poderia ter selado o meu destino, mas que por forças inimagináveis, não se concretizou. Tudo tinha para dar certo, mas não deu. As peças se encaixavam, nós nos encontrávamos, mas não rolou. E, durante algum tempo, acreditei que eu não tinha sorte no amor, mas o futuro chegou e percebi que nem sempre a escolha que fazemos mentalmente, seria a melhor.
Era um feriado prolongado de Semana Santa, e mais uma vez eu e minhas amigas fomos para Divinópolis, para mais uma aventura na cidade. Nada de estranhezas ou encontros mirabolantes, mas apenas noitadas em barzinhos e danceterias. No entanto, um rapaz lindo tomou conta do cenário e é dele, ou da atração que senti por ele, que falo aqui. Após uma discordância entre nós, meninas, decidi comprar passagem de volta para o domingo próximo, já que não havia retorno para BH naquele dia. Mesmo chateada, resolvi acompanhá-las à lanchonete, imaginando o quão seria chato aqueles dias.
Mas, a natureza é mesmo pirracenta, e para me castigar, colocou no meio do caminho um rapaz lindo, que nos foi apresentado enquanto comíamos hambúrgueres. Digno de filme internacional, com tantos atributos físicos (quero dizer, lindíssimo) era impossível não me apaixonar. E enlouqueci.  Além da beleza, ele tinha muitos talentos: jogava futebol com maestria, tocava violão, contava piadas engraçadas e previa o futuro das pessoas, através da quiromancia. Assim que se apresentou, comentou sobre o tamanho das minhas mãos (são enormes, meio másculas) e disse que decifraria cada linha desenhada nelas. Calmamente ele disse que eu me casaria dali há dez anos e teria três filhos. Enquanto vasculhava o meu destino, eu não desgrudava os olhos dele, fazendo gracinha para as meninas, que riam em silêncio. Era muito bonito para deixar escapar - eu pensava!
À noite nos reencontramos num barzinho e aquele cara foi ainda mais gentil. Eu não estava bem de saúde e ele se ofereceu para me levar para casa (emprestada de um amigo) e ficou comigo até as meninas chegarem de madrugada. A casa ficava numa área rural, rodeada de matos, e ele teve medo de me deixar ali sozinha. Para passar o tempo, ficamos ouvindo música e acabei dormindo em seus braços. Ao sermos flagrados no sofá daquele jeito largado, a impressão que todos tiveram é de que algo mais sério tinha acontecido, mas eu ainda não estava preparada e não entrava na minha cabeça me entregar tão facilmente ao primeiro homem que aparece na minha frente.
Na manhã seguinte, sem aviso, o bonitão apareceu na casa para me levar à chácara em que tínhamos planejado passar o feriado. Apenas nós dois fomos em seu carro, enquanto as outras meninas foram de carona com o namorado de uma delas. No meio da estrada, trocávamos beijos, ao som de Raul Seixas no toca-fitas (sim, toca-fitas, que era o de mais moderno naquela época), e muitas juras de amor. Até mesmo no momento de abastecer, ele fazia gracinhas através do vidro, esperando um sorriso meu, que era correspondido largamente.
Ao chegarmos, fomos muito bem-recebidos, com uma mesa deliciosa de café e alimentos típicos. Os rapazes foram convidados a mochar bois enquanto as meninas ficavam apreciando aqueles corpos segurarem os bovinos e lhes cortar os chifres. Depois,  arriscamos uma cavalgada e demos muitas risadas com as piadas contadas pelo bonitão na varanda. E foi de lá que o vi, andando a cavalo, com jeans e chapéu de caubói, num vai-e-vem enlouquecedor. Eu babava naquele cenário hollywoodiano, imaginando que aquele seria o primeiro homem da minha vida!
Após o almoço, fomos dar um passeio à pé, pela estrada, catando mangas de vez e descobrindo as maravilhas daquele lugar, como uma casa abandonada, lotada de morcegos que nos surpreenderam e nos obrigaram a correr para não sermos picados. Depois, nadamos na lagoa, e já cansada, ele me pegou no colo e voltamos para a chácara. Á noite, depois de uma festa no arraial, dormimos em quartos separados, vigiados pela dona do lugar. Tudo parecia mágico, era como se eu encontrasse meu grande amor num conto de fadas e eu não quis mais acordar daquele sonho.
No domingo, enquanto todos dormiriam até tarde, acordamos cedo. Era hora de ir embora e não deu tempo para despedidas. Apenas tomamos um café rápido e o bonitão me levaria para a rodoviária. mas, ao contrário do que imaginamos, veio conosco a mulher que não desgrudou de nós o tempo todo, na chácara. Ela pediu carona e não tivemos como negar. Falando demais, ela impedia que nos beijássemos como antes e acabei ficando calada o tempo todo. Quando ela enfim desceu do carro, fomos esperar pelo ônibus que só sairia duas horas depois. Para passar o tempo, resolvi que aquele seria meu grande momento. Acho que daria tempo de curtir minha primeira vez com alguém que eu acabara de conhecer, mas que havia sido tão especial. Após a decisão, procuramos a chave da casa e só então lembrei que havia deixado com a mulher para devolução ao dono. Foi outro gesto meu, de burrice, em tão pouco tempo.
No meio da estrada, relembrei em detalhes todo aquele romance e teria certeza de que me casaria com aquele homem, que reunia tudo o que uma mulher sonha encontrar. E dois dias depois, já em BH não suportei a saudade, liguei e resolvi encontrá-lo no fim-de-semana seguinte, o primeiro de muitos. Para quem não sossegava com paixões, fiquei enlouquecida e nosso relacionamento passou a ser visto pelos amigos como um possível casamento. Mas, de uma hora para outra a relação esfriou e nunca mais apareci na cidade com a intenção de ver aquele rapaz.
Nunca mais o reencontrei aquele cara e nem soube da sua vida, até que no ano passado, ao visitar um parente, no meio de uma conversa, seu nome, que não é muito comum, foi citado como um marido que dá trabalho para a esposa. Curiosa, fiz perguntas, quis saber a idade, onde morava quando solteiro, e o que faz hoje, etc. Não havia dúvidas de que era ele. Sim, o bonitão, tão romântico, gentil, divertido, respeitador, se mostrava agora, um desalmado com a família, que traía a mulher sem o menor pesar. Fui, então, ao mesmo tempo, no passado e no presente, de uma maneira terrivelmente rápida. Fiz comparações, me coloquei no lugar da esposa e dos filhos, imaginei como o bonitão estaria agora, se ainda lhe valia este apelido.
Decididamente, aquele homem não servia para mim, pois era o contrário de tudo o que desejei. Um dia ele leu as minhas mãos e previu um futuro que não se concretizou. Ainda bem. e ao invés de arrependimento ou frustrações, agradeço pelos seus desacertos com relação à mim. Talvez suas previsões até estivessem certas, mas com a pessoa errada. Eu não me casei com aquele Casanova, nem tive filhos seus e foi o destino que não quis. Não sou infeliz porque não me casei com o bonitão. Sou feliz por não tê-lo em minha vida!

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Elisa sumiu, mas os suspeitos estão soltos!

No Brasil, o sistema prisional é uma dádiva concedida aos bandidos, que matam, roubam, estupram, corrompem, torturam. As penalidades, muito brandas, não servem como métodos pedagógicos, mas sinalizam que o crime compensa. É como passar a mão na cabeça do filho que cometeu besteiras, ao invés de lhe aplicar um castigo. Prisão não é hotel e quem comete um crime não deve ficar livre, mas encarcerado e pagar pelos próprios erros. A questão é quanto tempo de prisão o transgressor deve pegar, e não soltá-lo ou diminuir a pena por bom comportamento, ou ainda reduzi-la a um terço. A Justiça não deve ser uma madrasta, mas também não pode ser uma mãezona, daquelas complacentes e excessivamente permissivas e carinhosas. Afinal, quem comete irregularidades não sabe se comportar diante da sociedade, e é para estas pessoas que servem as cadeias.
As leis existem para serem cumpridas, e a punição, para valer, precisa ser aplicada com rigor e não se deve abrir brechas para os bonzinhos que se comportam como atores na cadeia. Cientes de que terão a pena reduzida por bom comportamento, assassinos se tornam, de repente, cavalheiros dignos de filmes como "Os Três Mosqueteiros", em que o vilão é visto com orgulho, porque apesar de cometer irregularidades, têm um bom coração. Não há empatia em crimes, principalmente os bárbaros. Um assassino não pensa nos familiares da vítima, nem no sofrimento das mães com a perda de seus filhos nas suas mãos nojentas, imundas, por vezes, sujas com o sangue de quem acabou de matar. É vergonhoso aceitar que quem tira a vida do outro merece perdão.
A Justiça é mãe quando justifica a soltura de certos presos  sob o argumento de que "não apresentam riscos à sociedade" ou que "fulano não tem antecedentes criminais". Ora, qualquer pessoa pode matar, seja em legítima defesa ou por raiva, ciúme, ambição, inveja. E, para cometer um crime pela primeira vez, não é preciso ter um histórico assassino. Não podemos nos esquecer de que há sempre uma "primeira vez", até mesmo para os serial killers (assassinos em série). A intenção da Justiça não deveria ser a compreensão psicológica do assassino, mas aplicar a penalidade de acordo com o crime e não é isso o que vemos, no Brasil, comumente. Essa facilidade envergonha o sistema judiciário e favorece a violência.Tirar a vida de alguém e depois se comportar como um príncipe não é ser um bom garoto: é cinismo!
Têmis: um dos símbolos da Justiça
Ontem, mais uma vez o Brasil se viu chocado com a Justiça, quando o goleiro Bruno foi solto, depois de sete anos de prisão, pela morte da modelo Elisa Samúdio. Ele e o amigo, Macarrão, foram acusados de sequestrar a moça, mandar matá-la e sumir com o corpo dela (que teria sido dado a cães ferozes). Nenhuma prova concreta foi apresentada contra eles, apenas indícios de um suposto crime, já que o corpo jamais foi encontrado. Macarrão já estava livre e agora é Bruna quem volta à sociedade, depois de viver os horrores da prisão.
O Brasil é cheio de contrastes, principalmente em relação à Justiça e ao sistema carcerário, este separado por critérios que causam aberrações. Enquanto algumas cadeias são imundas, sem banheiro e lotadas de presos, outras, limpas e com certo conforto, são reservadas a criminosos famosos ou que possuem curso superior, favorecendo uma segregação por conhecimentos e cargos públicos. Mas, por outro lado, encontramos prisioneiros cujas penas ultrapassaram sua penalidade, mas por falta de advogado, continua preso e privado da mesma liberdade concedida a outros. Dá para entender? Não, não dá. É confuso demais.
Quem mata não está preocupado com as consequências de seus atos. O assassino pensa apenas em si no momento do crime. E é por este ato que se deve julgar, e não pelo que a pessoa foi ou será. Logicamente que há casos em que a legítima defesa deve ser levada em conta, mas até nisso é preciso ter cautela, pois do contrário, a matança seria exagerada, sempre com desculpas e justificativas variadas, que tanto podem ser verdade como mentiras deslavadas. Nós, cidadãos comuns desconhecedores a fundo das leis, vemos de fora os casos e os julgamos de acordo com os nossos conhecimentos e valores e por isso, muitas vezes, agimos com as próprias mãos, incrédulos na Justiça. 
É preciso não só condenar ou liberar presos, mas avisar à população, em detalhes, o porque das decisões. Temos ao menos o direito de entender tais providências porque, se não somos juízes oficiais, fazemos julgamentos a todo momento.  Infelizmente, nem sempre o que julgamos é correto, segundo a legislação. Mas, acreditamos que o que aqui se faz, aqui se paga. É o nosso senso de Justiça, baseado no que vivemos, no que somos, no que aprendemos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A evolução que nos faz perder!

Há milhares de anos, a agricultura e a domesticação de animais causou uma grande transformação no modo de vida do ser humano, que até então vivia em cavernas e se mudava à medida em que o alimento acabava. Com oferta de leite, ovos, carnes e frutos, no próprio quintal, o homem passou de nômade a sedentário, acarretando um prejuízo à saúde que pagamos até hoje. Começou assim e terminou na tecnologia que avança  a passos larguíssimos, a cada ano. Se antes precisávamos matar literalmente um boi por dia para comer, hoje encontramos o animal congelado, em pedaços, para cozinharmos diariamente. Nos supermercados, há também todo tipo de vegetais, vindos de toda parte do mundo. E nas prateleiras, encontramos ainda, biscoitos, doces, balas, manteigas e salgadinhos ensacados. Tudo com muito açúcar e sódio, que aumentam a glicose no corpo, causam pressão alta e permitem o acúmulo de gordura no corpo.
Há muito não precisamos matar um mamífero para servir de almoço, mas o que deveria ser um descanso, passou a ser o grande mal dos séculos. Do homem das cavernas até hoje, nossa alimentação foi se tornando cada vez mais "plastificada", com gostos muito parecidos, difíceis de serem definidos. Sem contar que preferimos refrigerantes à água, e sanduíche ao invés de um jantar saudável. E, se antes tínhamos que correr do perigo, ou em busca da caça, hoje temos tudo à mão, através do computador, controle remoto ou do aparelho celular. Com tanta comodidade, passamos a ficar mais tempo sentados ou deitados, do que em pé. Trocamos as caminhadas por esteiras e não há cheiro de flores ou de frutos, nem o frescor das matas, mas o som altíssimo das academias, que agridem os ouvidos, em tons confusos. E são justamente a ginástica localizada e os aparelhos tecnológicos que estão mudando nossas estruturas corporais. Se antes usávamos sobretudo os braços e pernas, hoje privilegiamos as partes do nosso corpo que poderão servir como um cartão de visitas para a delícia dos outros. E, apesar da substituição dos nossos membros inferiores e superiores (pernas e braços) por robôs em fábricas e construções, estamos gastando demais os dedos em mensagens que enviamos a todo momento através de aplicativos de celulares. 
Nesse movimento de descobertas e invenções, estamos perdendo muito, a cada dia. A tecnologia, muitas vezes, não privilegia as relações humanas, pois nos torna solitários, mesmo diante de uma multidão. Nossa evolução inclui pontos de luz, vermelhos, que fazem milagres ao menor toque. Assim, consigo ligar a TV ou mudar de canal, sem sair da cama. Passando um cartão, é possível fazer compras, endividar e entrar em hotéis chiques. Os alimentos, já cortados, ensacados, evitam os cortes nas mãos e o toque nas texturas de carnes, frutos e verduras. Tudo mudou muito rápido e estamos vivendo sem prazer, numa disputa em todos os setores. Já não podemos perder tempo conversando, sorrindo e todos parecemos iguais, até mesmo nos rostos, agora engessados pelo Botox, que congela a face para evitar rugas. As bocas perderam seus formatos originais e se transformaram numa aberração preenchida com a proteína animal.  Uma belezura de dar medo! 




Sátira da internet: site Prof.Dr. Fabricio Roscolo Del Vecchio



O mundo, apesar da tecnologia e das invenções mirabolantes, está tendo uma reviravolta, mas ao passado. Não estamos indo para fora de casa à toa. Cada vez mais estamos enclausurados em nossa "caverna", onde só saímos para o trabalho, para a escola ou baladas. É preciso ter um motivo sério para nos tirar de frente da TV. O quarto, que servia para dormir e para o sexo, virou o refúgio dos jovens que passam o dia em disputas digitais, se colocando no lugar de assassinos que dilaceram corpos, numa carnificina sem precedentes, coisificando a sanguinolência jorrada como água. Dá pavor presenciar crianças e adolescentes "matando" seres inanimados, feitos "à imagem e semelhança" do ser humano. Somos nada, fazemos pouco, não construímos, destruímos. E nos achamos demais! Tudo o que eu preciso é mostrar. E, nada melhor do que postando o que eu tenho, ou sou, na internet. A aprovação vem através dos Likes, das curtidas, dos comentários. 
Se o homem pudesse atravessar os séculos, poderia presenciar tais mudanças com muito espanto, mas tudo o que ele sabe é através dos livros ou dos registros feitos por outras pessoas, em épocas passadas. Da minha infância até agora, vi a TV se afinando, colorindo, passando de estrela da casa, a eletrodoméstico barato. Acompanhei a substituição da máquina de escrever pelo notebook, mais ágil e mais leve, e ainda com capacidade para impressão. Aprendi a usar o microondas para esquentar a comida, mas me recuso a fazer comida no aparelho, cujo resultado é de um gosto duvidoso. E o que dizer do celular, que surgiu como um bloco de tijolo e hoje cabe no bolso, e que serve não só como meio de comunicação, mas também como banco, internet e cinema em miniatura? 
As mudanças podem ser bem-vindas e necessárias, mas não me parece que o ser humano é mais feliz do que ontem. Fui uma criança que conheceu a rua como extensão do próprio quintal. Catei coquinhos na mata, criei passarinhos, colhi tanajuras no inverno e à noite guardava vaga-lumes embaixo da cama como se fossem abajur. Sou de um tempo em que os vizinhos faziam parte da família e os livros eram os companheiros na hora de dormir. Brinquei de boneca e troquei olhares com pretendentes nas escolas pelas quais passei. Televisão tinha hora para assistir, assim como a alimentação, que deveria ser balanceada e saudável. Hoje, as crianças estão viciadas em celular e os aparelhos viraram mania entre os adultos, que não conversam mais, mas passam o dia trocando mensagens e vídeos via Wattsapp. Não pretendo um retorno aos velhos tempos, nem reverenciar uma nostalgia dos tempos idos. É apenas uma reflexão, uma busca filosófica do que deixamos de ser, para nos tornarmos o que somos hoje. Pode ter havido um ganho excepcional com os adventos tecnológicos. Porém, o prejuízo às relações é incalculável. Tenho medo do que seremos no século seguinte. Ainda bem que não estarei aqui para contar a história.

Beijos, Carla Vilaça