segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

De mulher à borboleta!

Nunca fui muito reservada em relação à minha vida porque sou muito transparente, não tenho grandes segredos a serem escondidos e por isso não me importo em dividir meus pensamentos com as pessoas. Desde criança falo o que penso e só tenho amizades com quem realmente gosta de mim como eu sou: geniosa, falastrona e muito, muito sincera. Mas, há épocas na vida em que deixamos de ser o que somos para nos vestir com uma capa para conseguir a aprovação dos outros. Então, camuflamos a nossa personalidade e nos transformamos no que os amigos, parentes ou companheiros desejam. Essa "mentira" a que nos propomos se transforma num dilema de alma que não cabe no corpo. E, sabemos que enganar muita gente, por muito tempo, é impossível. E então, aos poucos, vamos desmascarando estas falsidades e entramos em conflitos que muitas vezes exigem um apoio psicológico para voltar ao nosso eu de antes.
A fase em que mais isso acontece, logicamente é a adolescência, transição da infância para a fase adulta, que gera tantos contrastes, entre o que somos e o que achamos que podemos fazer ou ser. E são estas contradições que ajudam a completar o molde da nossa personalidade, que começou no útero e só termina quando morremos. Vivemos num constante aprendizado que nem sempre pode ser aplicado aplicado enquanto temos o vigor e a saúde da juventude. Por isso muitas vezes, os velhinhos dizem que são mais felizes hoje do que antes, pois detém uma sabedoria que foi adquirindo com o passar dos anos.
Particularmente, penso que a vida é errada porque o corpo não acompanha a mente. Como dizia um amigo de infância: "quando somos jovens temos tesão, mas não temos dinheiro. Quando temos dinheiro, já estamos velhos e não temos tanto tesão". Marcelo era um filósofo nato e morreu aos 21 anos e por isso não sei o que poderia achar deste pensamento décadas depois. Mas, o fato é que esta frase me acompanha por anos a fio e vivo a me perguntar porque tem que ser assim. Meu amigo não se referia apenas ao tesão em relação ao sexo, mas ao cotidiano, à busca pelas realizações, que nem sempre são concretizadas quando nossos músculos e hormônios estão à flor da pele.  
Tive muitos sonhos que não foram realizados e que jamais o serão, pela expectativa que não condiz com a minha vida de hoje. O que eu sonhava, aos 15 anos, em ser uma atriz de Hollywood, não combina em nada com a minha profissão de hoje, uma professora de escola pública, divorciada com filho para criar e a casa para arrumar, sozinha, diariamente. Meu cotidiano não tem nada a ver com tapete vermelho e aplausos. Quando abandonei o teatro eu ainda tinha sonhos em relação ao cinema, mas havia outros ainda mais importantes, como ter um filho, encontrar um amor de verdade e ser uma jornalista formada e bem sucedida. Atuei em teatro, fui casada com um grande amor e cheguei a trabalhar como redatora, locutora e produtora. Mas, destes três sonhos, apenas o da maternidade se completou por inteiro, com o nascimento do meu filho, que hoje tem sete anos.
Tenho contrastes que me incomodam e não me permitem uma linearidade no meu caminho pela vida. Planejo muito e concretizo pouco, mudo de foco e perco o interesse muito rapidamente pelas coisas. Sou assim em tudo: com a casa, a maquiagem, os livros que leio e até mesmo com os esmaltes, que chego a mudar de cor várias vezes ao dia. No entanto, os sonhos são pessoais, mas nem sempre a realização deles depende exclusivamente de nós. Para trabalhar na profissão escolhida, dependemos dos outros para as oportunidades nas empresas e moro num Estado com poucas oportunidades para as áreas de Comunicação e Artes Dramáticas, mas confesso que tentei de tudo para a realização dos meus desejos. Cheguei a viajar para o Rio de Janeiro, enviei currículos para emissoras e TV e fiquei horas sentada numa fila enorme, em frente à Globo para me inscrever como atriz. Depois de tanta insistência, me desiludi. 
Não sou mulher de mochila e acampamento. Gosto do que é seguro, de ter o meu dinheiro para pagar as contas, e não ficar mendigando empregos em emissoras ou contando com o público de espetáculos que nem sempre correspondem às expectativas. Eu não estou mais feliz porque não estou atuando, nem menos satisfeita por não fazer reportagens. Acontece que a vida é imprevisível e a felicidade pode estar nas pequenas coisas. Não me imagino, atualmente, passar horas num aeroporto, esperar o dia inteiro para gravar uma novela ou representando aos domingos num teatro nem sempre cheio. Gosto de rotina e a vida glamourosa já não combina comigo. Tenho tantas responsabilidades, tantas atribuições no meu dia-a-dia que sequer posso pensar no que deixei de ser. 
Olhando o meu passado, percebo que eu poderia ter sido mais firme nas minhas convicções. Se pudesse, voltaria tudo de uma forma diferente. Perdi muito tempo com bobagens. Eu teria me comprometido seriamente com os meus sonhos e só me sentiria feliz quando eles se realizassem. Eu seguiria uma linearidade anotada num diário e tiraria as pedras deste caminho, com uma brigadeira imensa. Eu não daria vazão às opiniões contrárias às minhas e não teria tempo para romances. Na verdade, eu seria uma mulher mais forte do que sou hoje e aproveitaria com maestria todos os meus dotes pessoais nas minhas conquistas. Eu não aprendi a viver, fui vivendo, um dia após o outro, dormi demais. Acho, inclusive, que meus sonhos nunca combinaram com o meu jeito pacato de ser, um "bicho do mato", como me apelidou meu ex-marido. 
Logicamente há momentos de arrependimento pela minha fraqueza diante das dificuldades, principalmente porque sei que muitas coisa é por acaso, e não o contrário. As buscas nem sempre correspondem às conquistas. Não dou passos largos a cada dia, mas muito, muito de vez em quando faço isso. Eu realmente não me imagino com outra vida, cheia de compromissos, principalmente à noite (durmo muito cedo), não me satisfaria com a exposição exagerada, tendo que dar autógrafos ou satisfações pelas decisões que tomei. 
A questão é que anos depois ainda não me encontrei. Ainda busco satisfações que não estão em lugar algum. Me fechei num casulo gigante e estou numa fase "borboleta" e esta metamorfose me dá preguiça e desânimo. Quando eu acordar e me desvencilhar desta casinha de gravetos e folhas, espero ter algum benefício num mundo desconhecido como inseto e não mais como um ser que rasteja em busca de alimento. Estou vivendo uma adolescência às avessas e aprendendo, não com os outros, mas comigo mesma. Estou ansiosa para acordar, para voar e espero que eu tenha asas imensas, de um azul metálico como estas borboletas raras. Pretendo passar de flor em flor, me escondendo dos colecionadores, que ao menor descuido, podem me capturar e me exibir num quadro de vidro exposto na parede. Se isso acontecer, novamente, nada terá valido a pena!

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