sexta-feira, 10 de junho de 2016

Tolerância zero: nós e os valores!

Sempre deixei claro que não gosto de animais e que não entendo o amor exagerado de algumas pessoas por seus bichinhos de estimação, mas esclareço também que isso não me dá o direito de judiá-los. Entendo, inclusive, a fidelidade e o carinho deles pelos donos. Tenho dificuldade mesmo é de compreensão em se humanizar os animais, colocando roupas, sapatinhos e fraudas por cima dos pelos dos caninos e felinos, como se sem os acessórios eles não sobrevivessem. Animais são seres vivos, capazes de sentir dor e amor como os humanos, mas jamais serão gente, por mais maravilhosas que sejam as justificativas. 
Mas, hoje ocorreu um fato que me irritou profundamente, colocando à prova toda a minha teoria em desfavor dos bichos. Eu estava na fila da lotérica para pagar uma conta, quando fiquei ladeada por um cachorro que insistia em dar a volta pelas minhas pernas. Eu estava de bermuda e tentava espantá-lo para que me deixasse em paz para ler o meu livro, enquanto aguardava ser atendida. Até que em determinado momento, distraída, senti a língua gelada e molhada do cachorro enorme no meu joelho. Gritei de susto, chamando a atenção de todos que estavam na fila. O silêncio foi total, como se eu tivesse cometido um crime. Rapidamente apareceram os donos do cão, um casal mal educado que se ofendeu com o meu xingamento. Fui obrigada a ouvir que "as pessoas não se igualam aos animais", "o cachorro é limpo", etc, etc.
Cães em forma de deuses 
Não suportei a ofensa e respondi à altura, dizendo que não perderia meu tempo discutindo sobre cachorro com desconhecidos. Enquanto ouvia a grosseria, permaneci calada, fingindo não ser comigo até que me surpreendi com a fala de uma mulher, no final da fila. Ela chamou o dono do cão, disse à ele que eu não estava errada, que ali era um estabelecimento comercial e que os cachorros não eram bem-vindos. Rapidamente outras vozes a acompanharam e, sem graça, o homem chamou o cão ficando com ele do lado de fora da lotérica. Mais calma do que eu, aquela mulher soube expressar exatamente o que eu sentia e as outras pessoas também, mas que por receio, preferem se manter caladas diante de polêmicas. 
Eu fiquei tão assustada com aquela atitude do homem que fiquei pensando no quão invertidos estão os valores. Eu posso não gostar de alguma coisa, mas sei dos meus limites, tenho conhecimento das barreiras que envolvem os sentimentos e sensações. Sou uma cidadã consciente dos direitos e deveres e jamais firo minha ética para obter vantagens. No caso do cachorro, a ofensa não acontece porque o cão lambeu meus joelhos, mas pela insatisfação dos donos do animal que não aceitaram o fato de eu não considerar o bicho tanto quanto eles. Oras, ninguém é obrigado a nada e principalmente a gostar do quê ou de quem. Sou muito sincera e se não gosto de algo não gosto e pronto. Detestei aquela lambida nojenta e não fingi que adorei porque tenho minhas convicções. Terminei a confusão não respondendo àquela ignorância por ser maior do que aquilo.
Antes, bem antes de Cristo, os povos egípcios adoravam os animais e os consideram santos. Assim, serpentes, cachorros, leões, gatos, entre outros, eram representados de forma suntuosa, sendo adorados em rezas, procissões e homenagens. Na Literatura, cavalos tinham asas e poderes, e alguns personagens tinham o corpo de gente e a cabeça de animais, como a Medusa (mulher com cabelos de serpentes) e o Minotauro (homem com cabeça de touro). Essa adoração foi combatida fortemente pelo Cristianismo e não se remete aos dias atuais, que se deixe claro. Mas, o exagero me leva a compreender como aquele povo, que viveu no mínimo quatro séculos antes de nós, tinha o apelo tão forte pelos animais.
Minotauro: cabeça de touro, corpo de homem
Não desejo fazer com que pensem como eu, mesmo porque alguns bichos são necessários pelos mais diversos motivos, mas o ser humano sempre foi, para mim, mais importante do que os animais. O que falta, no mundo moderno é a tolerância. É saber que o outro não precisa gostar do que eu gosto, não precisa se comportar como me comporto. Amar um animal não significa desamar as pessoas. Cada qual em seu espaço. Animais continuarão animais porque são irracionais, porque são diferentes de nós, anatomicamente falando. Pode-se amá-los o quanto for, mas jamais serão humanos.
Estamos passando por um momento difícil na humanidade, em que todos os avanços tecnológicos, químicos, científicos facilitam nossas vidas, ampliam nossos conhecimentos, nos deixam mais confortáveis, mas não estão contribuindo com nossas mentes para que sejam mais abertas ao diferente. Com tudo isso as informações estão sendo exageradas, vivemos como se estivéssemos com um fósforo nas mãos ao lado de um barril de pólvora. Estamos voltando aos tempos bárbaros e isso me assusta. Não adianta amar um animal e por ele brigar, matar ou morrer. Não é saudável a substituição. Amor significa doar, agregar, não separar e diferenciar. Estamos em crise! Os amores estão invertidos, o respeito também. Podemos amar tudo e todos e devemos respeitar as ideias e os sentimentos com maturidade. Não se obriga a amar, sejam pessoas, animais ou coisas. A beleza da vida é mais simples do que se imagina. Ser radical nos sentimentos não valida nossas almas. É simples o velho ditado: "Meu direito termina onde começa o do outro". Só isso!!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários para carlahumberto@yahoo.com.br