quarta-feira, 11 de junho de 2014

"Vai dizer que cê nunca viu um desses"?

O professor, em sala de aula, não é apenas um transmissor de conhecimentos. Para os alunos, ele acaba sendo também, um psicólogo, um amigo, que vai lhe ajudar a entender o mundo, tão fascinante, curioso e cheio de armadilhas. No entanto, a escola é composta das mais diferentes pessoas, cada qual com sua história particular, carregada ou não de complicações familiares. É então que perdemos, muitas vezes, o rumo da situação. Saímos da vestimenta da sabedoria para encarar uma realidade por vezes cruel, como abusos de crianças e violência doméstica, por exemplo. Em duas situações, tive que encarar fatos que só via nos noticiários: dois alunos, com idades diferentes e em épocas distintas, viram suas mães serem assassinadas pelos maridos e nada puderam fazer, a não ser desabafar em sala de aula. Perplexa, me pus a disposição para uma conversa, mas não deu muito certo. A primeira, uma adolescente de 14 anos, seguiu para o recreio e nunca mais tocou no assunto. O outro caso, com um aluno de sete anos, passou a se vangloriar por ser agora, o "homem da casa", após a morte da mãe, e o sumiço do pai, que fugiu do flagrante!
Mas, casos menos violentos também nos assustam. Eu estava grávida quando passei a receber "cantadas" de um menino de onze anos que estudava na escola onde eu lecionava. A todo momento, vinham mensagens escritas ou transmitidas oralmente por outra criança, com frases eróticas que me desconcertavam. Certa vez, já cansada daquelas investidas, puxei o aluno pelo braço para tirar satisfações, e me surpreendi. Em seu rosto não havia medo, mas um olhar dissimulado, que o livrava das punições. Utilizando uma linguagem infantilizada, ele conseguia privilégios na escola, como ficar perambulando pelos corredores sem ser advertido. Sem penalidades, o menino continuou me perturbando, até desanimar.
No ano seguinte, foi a vez de uma aluna me surpreender. Muito carinhosa, rapidamente ela se tornou minha admiradora e me defendia de todos na escola. Em sala de aula, seu rendimento não era dos melhores, mas a personalidade agitada e carismática me conquistou. Eu a repreendia constantemente pelas conversas e a bagunça em sala, mas ela se desculpava e eu acabava rindo, perdoando-a. Aquele rostinho tão ingênuo e franco, aos nove anos, na verdade, escondia segredos de uma mulher adulta. Descobri isso, ao recolher um bilhetinho seu, encaminhado a uma colega da carteira ao lado. Durante um bom tempo, fiquei olhando para o desenho e para seu rosto, cujos lábios contraíam num sorriso maroto, coisa de quem fez bagunça com consciência. Diante da minha reação, os alunos me perguntavam o que havia naquele pedaço de papel. Sem responder-lhes, guardei o bilhete para que não fosse recolhido no lixo por outra criança. Se fosse só pela imagem, eu não me assustaria tanto, mas o que mais me chocou, foram as palavras daquela menina: "Ah, tia, vai dizer que nunca viu um desses?" Tratava-se de um pênis enorme, com todos os detalhes.




 

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