sábado, 28 de junho de 2014

Rico ri a toa!!!

A vida dos meus avós era muito simples, em Divinópolis. E era na casa deles que passávamos as férias, quando crianças. Mas, se minhas irmãs ficavam à vontade com a falta de conforto, eu detestava aquele colchão de capim, a privada no quintal, a cisterna e os banhos de bacia. Somente a comida da minha avó, o quintal grande e as histórias do vovô me faziam feliz, mas não eram suficientes para prolongar a minha estadia naquela casa. Eu detesto viagem, gosto de ficar em casa, com minhas coisas, ocupando o tempo com artesanatos e filmes, e ali eu ficava ociosa. Televisão, na casa dos meus avós tinha horário, e era desligada depois da novela das oito. Com sono ou não, tínhamos que dormir. E, rolar na cama num colchão espinhudo, não era nada agradável.
Mas, se durante a semana naquela casa era ruim, os finais de semana eram ainda piores. As visitas começavam cedo e muitas vezes ultrapassavam a tarde, nos deixando sem-graça, já que todas faziam menção ao nosso crescimento, e brincadeiras de possíveis namorados. Apenas a visita dos nossos primos eram agradáveis. Eram sete meninos com idade compatível à nossa, cuja beleza era famosa na cidade. Como não havia a certeza de que todos iriam, ficávamos arrumadas logo após o café da manhã. Bem magras, nossa roupa se resumia a shorts e minissaias, mas, como toda criança, eles não se importavam muito, preferiam matar passarinhos. Para chamar a atenção dos meninos, fingíamos interesse pelas brincadeiras, mas elas nunca ultrapassaram a barreira da criancice. Quando iam embora, a casa se tornava vazia, silenciosa, e então, dormir se tornava ainda mais difícil, já que os sonhos de um beijo com qualquer um daqueles príncipes nunca aconteceu.
Uma das visitas que eu mais detestava na casa dos meus avós, era a de uma tia. Rica, viajada, ela vivia rindo. Jamais se importou que meu avô, irmão dela, passasse por dificuldades financeiras. Negociante, na minha infância, eu a via como o Tio Patinhas, muquirana, com os olhos em forma de cifrões. E custava a acreditar que a endinheirada vivesse com  simplicidade. Sua casa, no centro de Divinópolis, era a mesma dos anos 20, época em que se casou. Os móveis nunca foram trocados e eram tão cinzas quanto sua dentição. Nada havia de luxo, a não ser um aparelho de som, moderno, que não combinava com os móveis antigos. Visitá-la não me dava prazer, pois seus famosos quitutes só ficavam na imaginação. Se ao menos ela me desse de presente uma roupa ou sapatos de suas lojas, eu poderia vê-la com mais simpatia, mas isso também nunca aconteceu.
Minha tia morreu idosa, depois de casar a filha sem-graça, com um homem também rico. Sua herança foi dividida entre os sobrinhos do marido, que faleceu quando ainda eram recém-casados, e nada deixou para a família do meu avô, a não ser a certeza de que viveu num mundo paralelo ao dele. Minha tia não era bonita, não tinha vida, embora vivesse rindo, numa boca que pouco abria. O cerrar de seus dentes escuros me causava depressão, quando eu a observava na sala da casa simples do meu avô. A conversa dela com os demais, parecia cena do seriado "primo rico e primo pobre", passado na TV. Enquanto uns falavam da dificuldade da vida, minha tia contava das alegrias de conhecer as cidades e os costumes diferentes. Com alma infantil, eu só desejava o fim daquela visita, tão sem sentido, tão sem porquê! Na linguagem jovem: "Um saco"!!!

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