quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Apedrejada como nos tempos bíblicos!

No segundo período da faculdade de jornalismo, me deparei com uma situação inusitada logo no início do semestre letivo. Uma aluna, de família classe média, roubou o dinheiro de uma colega durante o intervalo. Descoberta, a acusada nada disse diante da ferocidade dos alunos. Todos gritavam que a queriam fora daquela sala. Eu permaneci calada até que a chefe de turma passou uma lista para que todos assinassem. O "documento" fazia graves acusações à aluna e a denominava como psicopata. Quando me neguei a assinar, a confusão foi geral, houve protestos de alunos e ofensas. Não me intimidei e comparei aquela cena com a de Madalena, personagem bíblica, que foi apedrejada em praça pública. Jesus a salvou, perguntando à todos, se eles nunca haviam cometido um erro na vida.
Eu não quis repetir o gesto de Cristo, mas naquele momento, alguém tinha que fazer alguma coisa, já que a faculdade deixou nas mãos dos alunos o destino daquela moça. Lembrei que todos cometem erros, que o dela foi grave e que ela pagaria, mas não seríamos nós os juízes. Observei ainda que ali ninguém tinha capacidade para fazer análises médicas sobre uma pessoa. E mais: um jornalista, antes de tudo, deve ouvir as partes e não tomar como certas suas opiniões particulares. Eu mesma rasguei aquele abaixo assinado, disse que não assinaria e chamei de covardes os que colocassem seus nomes ali. Diante disso, o protesto morreu e o "apedrejamento" terminou.
A aluna, acusada do roubo, teve que mudar de curso e eu me transferi para outro turno. Não fiquei sabendo do futuro de ninguém daquela sala. Quando enfrentei todos eles para defender alguém que eu mal conhecia, não o fiz por mim, mas pela garota. A vi ali, encolhida, diante de tantas acusações e xingamentos, e me coloquei em seu lugar. Não sei se ela se formou em História, se hoje é uma boa professora, ou se teve a coragem de fazer jornalismo novamente. A encontrei um ano depois, num supermercado, e ela me agradeceu. Isso, para mim, foi o bastante!

Um comentário:

  1. Parabéns pela atitude e coragem de enfrentamento

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