domingo, 8 de março de 2015

Salva pelos impecilhos!!!

Eu representava apartamentos decorados, quando encontrei um amigo, e fui convidada por ele a acompanhá-lo a uma festa no fim de semana próximo. Eu havia terminado um longo namoro e sair de casa seria uma oportunidade para relaxar e me divertir. Mas, foi o contrário do que imaginei. Ao chegar àquela mansão, ao invés de ser bem recebida, fui ignorada, principalmente pela dona da casa, que enciumada do marido mais jovem, fazia de tudo para me deixar sem graça. E, num ato de insanidade, chegou a tirar fotografias de todos, me excluindo na imagem. Elegante, eu tentava despistar, e inúmeras vezes, discretamente, pedi meu amigo para me levar para casa. Depois de tantos anos, eu não me lembrava de seu lado pirracento, e tive que aguentar suas desculpas para continuar naquele lugar. Se ao menos meu amigo conversasse comigo, o tempo passaria mais rápido mas, enturmado com os conterrâneos, era como se eu não estivesse ali.
Naquela época não havia celular, mas eu olhava o aparelho de telefone da casa e me segurava para não ligar para o ex-namorado, pedindo que ele me salvasse daquela situação patética. Se isso acontecesse, ele viria logo, e teríamos que reatar uma relação que fôra tão infeliz. Por vezes tive vontade de chorar e sonhava com a minha cama tão quentinha à minha espera. Me lembro de perambular pela casa, numa tentativa de distrair, mas as horas não passavam. Meu estômago doía de fome e o cheiro daquele frango temperado exalava pelos cômodos, sem ser servido aos convidados. Na mesinha, em frente a lareira, somente pistache e castanhas era tudo o que se degustava. Num inverno apavorante, naquela casa alta, de beira de estrada, eu, sem casaco, me sentia na Patagônia, lotada de pinguins esnobes por todos os lados.
Eram três horas da manhã quando, já não aguentando mais, me sentei no sofá e puxei conversa com um convidado. Eu não tinha nada a perder, e por sorte, fui bem tratada por ele. Logo começamos a dar gargalhadas. A conversa fluía animadamente, quando meu amigo, ao me ver divertindo, chamou para irmos embora. Para irritá-lo, fingi que queria ficar mais, fiz cara de nervosa, e entrei no carro. Na volta para casa, prometi a ele que sairia outras vezes e agradeci a noite "maravilhosa" que ele me proporcionou. E ele ligou muitas vezes, mas jamais o atendi, até que desistiu. Na adolescência, fomos apaixonados um pelo outro, mas nunca sequer beijamos. O destino sempre nos traía com viagens e uma timidez que impedia maiores contatos. Já adultos, poderíamos até retomar uma paixão antiga, mas ao ver aquele homem pirracento e ignorante, me senti aliviada de ter compartilhado com ele apenas uma noite de festa mal sucedida. Fiquei imaginando, durante o trajeto para casa, se estivesse me rendido aos galanteios daquele ordinário. Ou eu estaria muito infeliz, ou morta... de ódio. E entendi que às vezes, as paixões não acontecem, por obra de Deus. Naquela noite, agradeci nunca ter ficado com meu amigo. Foram tantos impecilhos, que na juventude pensei se tratar de azar. Hoje, tanto tempo depois, percebo a importância deles para o meu futuro. Uff, que alívio!!
 
 
 

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Beijos,

Carla Vilaça