domingo, 3 de janeiro de 2016

A infância de ontem e a de hoje!

Passei minha infância em Divinópolis, interior de Minas, quando haviam poucos carros na cidade, em comparação aos dias atuais. A rua onde eu morava era meio íngreme, entremeada por um poste de luz amarela (as de hoje são brancas, que iluminam mais), com um lustre mais parecido com os pratos de louça da minha mãe. Passeios eram raros, mas árvores eram comuns, toda casa tinha uma no fundo do quintal. Nossos bichos de estimação eram diferentes dos que as crianças têm hoje. Convivíamos diariamente com os lagartos, mandruvás e passarinhos, que invadiam os cômodos, sem cerimônia. Janelas, portas e portões ficavam abertos e toda visita eram bem-vinda para um café com biscoitos e bolos caseiros. E nós entrávamos e saíamos das casas como se ali morássemos, pois cada família tomava conta das crianças dos outros como se fossem as suas. Nossas brincadeiras eram herdadas de gerações passadas ou inventadas por nós. Rouba-bandeira, queimada, roda, chicotinho queimado, passa-anel, caí no poço, entre outros, nos divertia e permitia uma interação inigualável, criando laços de amizade que costumavam perdurar para sempre.
Eu, à esquerda: infância pobre
Quando comecei a perder meus dentes de leite, o Brasil passava pela Ditadura  e a situação de constante vigília da população causava um medo absurdo em nossas cabeças infantis, que tudo exagera quando o assunto é de gente grande. Aliás, pouquíssimas vezes podíamos ouvir as conversas em rodas de adultos. Nosso lugar era reservado ao quintal, à rua, aos brinquedos empoeirados num canto da sala. Não havia bagunça porque sabíamos que a surra era a linguagem usada pelos nossos pais para castigar meninos e meninas desrespeitosos, arruaceiros, desmedidos. Esse mesmo medo nos atordoava na escola, quando professores e diretoras (quase sempre eram as mulheres que comandavam este posto) nos colocavam de castigo ao menor sinal de desobediência. A tortura em casa e no ambiente escolar acabou criando em nós, um senso de Justiça, de organização, de respeito pelos mais velhos, pouco visto nas crianças de hoje. 
Naquele tempo a alimentação não era farta em casa, mas nos quintais eram abundantes com frutas saborosas, que comíamos direto da árvore, sem lavar, com nossas mãos imundas de terra que havíamos cavado para encontrarmos minhocas. Havia vermes, lógico, mas parece que eles eram mais fracos e morriam com um comprimido maior do que uma bala Soft, amargo como fel e difícil de engolir. E era na escola que tomávamos o danado, matando-nos de vergonha na frente dos colegas pelo engasgo daquele quadrado verde. Constrangimento? Quem se importava com isso em nossas mentes? Não havia preocupação de governantes em relação à nossa auto-estima, ao que seríamos quando adultos, em relação ao nosso emocional, ao psicológico, ao social. Somente décadas depois essa preocupação passou a ser o foco de estudos pelo mundo inteiro. Até então, éramos vistos como adultos em miniatura.
Mas, apesar das dificuldades de entendimento da nossa mente, éramos muito felizes. Nosso dia começava cedo, com um café com leite e pão com manteiga. Não escovámos os dentes depois e saíamos logo para chamar os vizinhos e em poucos minutos estávamos na rua, rindo, correndo, pulando. Nossas energias eram gastas desta forma e não em frente à TV, objeto raro e caríssimo que ocupava um lugar privilegiado nas salas das casas de famílias mais abastadas. Até o tal aparelho servia de interação, quando os vizinhos se reuniam para assistir, em preto-e-branco, as novelas da Tupi. Nós, crianças, ficávamos num canto, claro, sem permissão para ver aquelas histórias românticas com beijo na boca, assunto proibido dentro de casa, assim como sexo, gravidez, separação de casais e menstruação, ou seja, tudo a respeito do corpo. E não havia discussão: podia ou não podia e pronto! Era assim a nossa criação. Sem questionamentos, sem discórdias, sem confusão. Tínhamos curiosidades mas, não tínhamos o direito de perguntar, apenas obedecer.
As crianças da minha época eram magras porque havia pouca comida em casa e por isso os horários da alimentação eram bem demarcados. Balas e chocolates só comíamos em dias de festa e para garantir a guloseima durante a semana, não raro roubávamos algumas e guardávamos nos bolsos dos paletós, que serviam também para nos proteger da ventania na volta para casa. Muito ossudos e com o clima gelado, garantido pela arborização e a falta de asfalto, sentíamos frio constantemente. E, como roupa era muito caro e a filharada era muita, só tínhamos um agasalho. E ai da criança que perdesse o paletó!
A permissão por outra delícia se dava no calor, quando o menino do picolé passava na rua chamando os moradores. Custando alguns centavos, nossas mães não se importavam de nos comprar aquele gelado de creme, amendoim, limão e mexerica, feitos sem leite como atualmente. Aquelas calorias permitiam um dia ainda mais prazeroso, um sabor de açúcar que jamais nos deixaria e que hoje é o vilão de adultos e crianças por todo o planeta. 
Até o nosso medo era diferente. Tínhamos pavor de bruxas, fantasmas e bicho-papão, que poderiam nos sequestrar, nos transformar em escravos ou se alimentar de nós. Víamos assombração em todo canto: atrás da roseira, embaixo da nossa cama ou no banheiro da escolinha (que chamávamos de jardim da infância). Como sempre fui diferente, meu medo era principalmente do rio que corta a cidade, da cisterna da casa da minha avó e de duendes que eu cismava que me levariam para longe da minha família. Eles faziam parte dos meus pesadelos noturnos e durante anos foram os vilões da minha mente adormecida, assim como os animais das histórias contadas pelo meu avô. Eu tinha certeza que seria uma vítima daonça pintada arrancadora de cabeças, da sucuri em forma de tronco de árvore ou do camaleão gigante que matava crianças. 
Rio que corta Divinópolis
Não éramos muito abraçados pelos pais na nossa infância, mas nem por isso deixamos de amá-los e entendê-los. A surra que levamos por qualquer bobagem não nos transformou em monstros, mas em filhos carinhosos e pessoas que se colocam no lugar dos outros, porque conhece a dor provocada por terceiros. Nas escolas o bulling era comum e nos defendíamos sozinhos, sem contar em casa, por vergonha e medo, mas isso nos tornou mais fortes e aprendemos a lidar com os malvados bem cedo. Fomos castigados nas escolas, humilhados por professoras que nos colocavam virados na parede, que nos obrigaram a ajoelhar em milhos e pedrinhas, e quase tivemos as orelhas arrancadas por elas, ao menor sinal de conversa durante as aulas. Fomos estapeados no rosto diante de uma curiosidade a respeito de assuntos que só interessavam a adultos e nem por isso desejamos vingança de nossos familiares. 
Hoje a criança se tornou o centro de tudo e até as suas fantasias são tidas como verdade. Tapas ou beliscões viraram casos de polícia e foram temas no Congresso. Nas escolas, os professores se tornaram as vítimas de crianças, adolescentes e de seus pais que não permitem sequer um castigo por desrespeito. Se vivíamos sujos de terra, atualmente as crianças são obrigadas a andarem calçadas com sapatos apertados e blusas de frio o tempo todo. Não há mais brincadeiras no quintal, e até os animais de estimação se tornaram quietos para não incomodarem com latidos, miados ou assobios. Aliás, não existem mais vizinhos, mas apenas um cumprimento rápido e uma criança não é mais cuidada por todos, mas uma vítima em potencial de qualquer pessoa. Já não se dividem alimentação como antes, mas a esconde do visitante. Já as brincadeiras de rua foram substituídas pelo computador e pela televisão. 
As crianças de hoje não correm mais riscos, são donas de tudo, ouvidas e protegidas demais. De coadjuvante, ela passou a ser o ator principal da sociedade. O não passou a ser uma palavra pouco usada na família para dar lugar ao sim para tudo. Estamos vivendo o absurdo, o exagero, a permissividade que podem transformar os pequenos em adolescentes arrogantes e adultos insuportáveis. A casa não é mais lugar de aconchego pois foi invadida pelo mundo através da internet. Já a escola deixou de ser um lugar de aprendizado para se tornar o centro do estudante. É ele quem dita as regras, é ele quem manda, e são os pais que acreditam cegamente neste jovem. Está na hora de mudarmos o foco. Não é preciso voltar aos tempos de antes para nos tornarmos melhor. É preciso enxergar os filhos não como seres inquebráveis e  donos da verdade, mas pessoas capazes de se colocar no lugar dos outros, de ajudar, de trabalhar, de mudar o mundo em que vive. Não estamos deixando as crianças viverem. Estamos vivendo por elas. Não deixamos mais os pequenos se sujarem, se machucarem, ralarem os joelhos. Há uma inversão total de papéis. Não somos filhos dos nossos filhos. Somos pais, e como tal, precisamos ter energia para educá-los. E fazendo suas vontades e impedindo de caírem, estamos deseducando-os, para a vida, para a sociedade, para conosco.

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Beijos,

Carla Vilaça