terça-feira, 6 de outubro de 2015

As nossas milhares de fases!

Sou muito preguiçosa, tenho que admitir. Todos os dias vou empurrada para o trabalho, ainda sonolenta, as seis da manhã e ao chegar, a bagunça da casa me desanima. Então, o máximo que consigo fazer é lavar a louça do almoço, que meu marido deixou na pia. Somente nos finais de semana é que consigo arrumar tudo, e me desespero porque gostaria de usar o tempo, não só para faxina, mas para o meu laser ou atividades diversas, como costurar ou cozinhar. Meu filho tem apenas seis anos de idade, e desde que ele nasceu, meu ritmo de vida mudou muito. Passei a ficar mais lenta, por causa da gordura que acumulei na gravidez, e a letargia é um mal que tenho que vencer diariamente. Para me manter animada, invento coisas, não posso parar. Mas, como não funciono à tarde, deixo as tarefas mais chatas para a noite, momento em que fico mais esperta. Assim, vou empurrando as chatices para o futuro, que nunca chega, para colocar tudo no lugar. São papéis acumulados em armários, roupas passadas para guardar, moldes para fazer e roupas para cortar.
Houve um tempo em que as mulheres não podiam trabalhar fora de casa, e viviam para o lar. Para ocupar o tempo, elas bordavam, pintavam e conversavam com as vizinhas sobre receitas culinárias, já que as televisões ainda não eram comuns, como hoje. E foi esse o cenário da minha infância. As crianças ficavam o dia inteiro na rua enquanto, os pais trabalhavam e as mães faziam pães e bolos para o café da tarde. Não víamos carinho entre nossos pais, a relação era muito discreta e os assuntos também eram segredo. Ao menor sinal de orelha em pé, apanhávamos sem dó ("isso é prá você aprender a não se intrometer em assuntos de gente grande"). E, talvez pelo medo de apanhar, era mais interessante ficar na rua, brincando de boneca, esconde-esconde, roda ou queimada. As casas tinham muros baixos e as portas e janelas ficavam sempre abertas, já que dificilmente apareciam ladrões. Os vizinhos eram muitos e pela presteza e proximidade, eram considerados parentes mais próximos. Éramos acostumados a dividir tudo e a receber a todos com carinho, independentemente da hora da visita.
Aquele tempo, onde a natureza é que indicava a hora de dormir e de acordar, ficou na minha memória.  Meu sonho de menina, confesso, não era ser uma profissional de sucesso, mas me tornar uma esposa carinhosa e mãe apaixonada pelos filhos, que enfeitava a casa com trabalhos manuais que fazia. Eu não tinha grandes desejos e só almejava dias comuns. Quando saí de Divinópolis para a capital mineira, estranhei a correria das pessoas, e como elas, passei a ter a vida controlada pelo relógio. Competência, então, passou a ter outro significado. Ser mulher de sucesso não era mais a dona-de-casa que sabia fazer tudo, que cresceu para agradar e nunca ser agradada. Ser mulher significava, a partir de então, a realização de sonhos gigantescos, em todas as áreas. Com essa consciência, meus desejos de ser alguém se tornaram mais fortes e passei a buscar elementos que pudessem me satisfazer enquanto ser humano.
Uma mulher, para se realizar, não precisa ser apenas mãe ou esposa, nem tampouco apenas profissional. Somos carregadas de sentimentos que mudam nossa visão de mundo a cada etapa, levando em consideração, principalmente os hormônios, que brincam com nosso corpo como se fôssemos marionetes. São eles que determinam nosso humor e nos faz mudar de ideia da noite para o dia. Hoje, casada, sei o quanto sou vulnerável e o com que velocidade os meus sonhos se transformam. Sou exagerada em algumas questões e fria em outras, romântica e prática, sedutora e maternal ao mesmo tempo. Pensei que, com a idade, as facetas femininas fossem amadurecendo e tomando um rumo certeiro, porém, isso não acontece e tenho a convicção de que serei essa pessoa, em transformação, até o fim dos meus dias. Somos um ser de sentimentos, uma sacola cheia de amor, desejos, ansiedades, sonhos, praticidade e emoções, que não se desfaz quando é aberta.
Fui criada para ser boa-moça, honesta, para me casar virgem, mas é claro que boa parte do que meus pais sonharam para mim, não se concretizou. Minha mãe, embora seja uma representante da dona-de-casa certinha, também tem várias facetas da mulher feminista numa mesma pessoa. E era essa inconstância que me irritava na adolescência e virava alvo de nossas discussões. Ela impedia que eu e minhas irmãs tivéssemos uma relação séria com algum rapaz, mas ao mesmo tempo, queria que trabalhássemos e estudássemos para conseguirmos nossa independência financeira, longe das amarras de marido. E esse sonho, que não era nosso, mas dela, me atrapalhou, porque eu me via em duas linhas completamente diferentes, que ainda hoje me confundem as ideias.
Depois que me casei, eu me vi livre dessas cobranças maternas, mas não das minhas, em particular. Acostumada a variar os pensamentos, não amadureci o suficiente para saber o que eu quero. Por isso, acabo fazendo um pouco de tudo e não concretizo nada. Irritada, culpo a vida e o meu marido pelas incertezas que são apenas, e acabo gastando o meu tempo, precioso, com bobagens. Outras vezes, não faço nada e fico só olhando o dia passar. Se eu não fosse tão preguiçosa, eu poderia agora mesmo arregaçar as mangas e ir atrás dos meus sonhos, que ainda são muitos, embora comedidos. A euforia me incomoda porque me deixa inquieta, com expectativas que não se concretizarão, uma vez que tenho outras prioridades, como mãe e como mulher. Quando fico muito preocupada com o cotidiano, que se esvai com o vento, me deito e espero passar esta vontade. E, mais uma vez, empurro para o futuro o que eu poderia começar a fazer hoje.
Nasci depois do Feminismo e me cobro uma postura condizente a este Movimento. Mas por enquanto, quero ser mãe apenas. Afinal, era esse o meu sonho de menina, que realizo com prazer. Podem me cobrar a vontade que não me importo. Estou tranquila com a maternidade e não anseio, como antes, uma vida glamourosa, regada a festas e gente bonita. Eu poderia ser mais do que uma professora, mas por enquanto isso me satisfaz. Logicamente, os meus sonhos não se tornaram um fim, mas nos meus pensamentos, por enquanto, deixo-os adormecidos. Quero viver um dia de cada vez, mas sem ansiedade ou sonhos mirabolantes. Quero uma simplicidade que não incomoda, que não faz acusações, que não espera de mim a mulher que não sou. E que não pretendo ser, jamais.


2 comentários:

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Beijos,

Carla Vilaça