segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Nada como uma fantasia para nos alimentar!

No Rio de Janeiro, há uns 20 anos, eu e minha prima quase fomos atropeladas ao sairmos de um shopping, na Gávea. O motorista não estava errado. Ele vinha de uma avenida e virou direto a rua em que atravessávemos. Sem perceber os nossos gritos, ele seguiu seu caminho numa seriedade sem fim. Só depois me dei conta de que era o apresentador de TV, William Bonner. Lindo, num carro preto, ele era a representação do homem certo para dividir a vida. Cheio de talento e beleza, ele ocupava a minha mente de fantasias e vê-lo, assim, mesmo através do vidro do carro, me deixou encantada. Já estudando Jornalismo, eu imaginava que um dia pudesse conhecê-lo pessoalmente, e quem sabe, surgir uma paixão. Mas, assim que soube que ele era casado, deixei-o de lado em minha mente.
Este mesmo encantamento eu tive com outros artistas, desde a minha infância, quando me apaixonei pelo Tarzã, aliás, pelo ator Ron Elli, que o interpretava. Na minha cabeça, aos cinco anos de idade, eu imaginava aquqle homem, musculoso, me ajudando a trocar a fralda do nosso filho, um bebê de plástico. Depois, jantávamos a comidinha que eu fazia de plantinhas nas panelinhas de plástico e fogãozinho colorido, que ganhei de aniversário. Como eu era feliz! De vez em quando meu inconsciente busca estas lembranças e me ponho a rir daquela situação. Friamente analisando, eu esperava meu marido chegar, depois de um dia lutando com os animais selvagens e ainda tinha tempo para trocar fraldas e ser carinhoso. Então, vivíamos de quê, se não trabalhávamos?
Colecionar paixões os ídolos é um procedimento comum entre as adolescentes e comigo também foi assim. Aos 13 anos eu troquei Tarzã por um ator, que morreu num acidente aos 21 anos. Deprimida, eu tinha fotos de Osmar de Mattos pregada em todo o quarto e substitui-lo foi difícil, mas alguns anos depois de muito sofrimento (eu parecia uma viúva), consegui ocupar o meu coração pelo ator Edson Celulari. Foi um amor quase incondicional e os meus namorados de carne e osso tinham que se parecer com ele, e como isso era difícil, eu sempre me sentia frustrada. Onde ele ia, aqui em Minas, eu ia atrás e uma vez me dei mal: Celulari participaria de um evento em Nova Lima e a festa estava programada para as onze da noite. Com medo de não encontrar lugar, cheguei às cinco da tarde. A fila em frente o clube já estava enorme e depois de pagarmos a entrada, ficamos esperando pelo ator, que nunca chegou. Dentro do salão, sem dinheiro, sozinhas, eu e minha irmã mais velha fizemos amizade com os garçons que dividiu o jantar deles conosco. Ficamos na festa até as cinco da manhã, porque não havia ônibus de volta antes deste horário.
Mas, como toda fã, não desisti e compareci, depois a várias peças em que Celulari participava e ele já me conhecia quando eu entrava no camarim. Chegava mesmo a me evitar, tamanha chatice minha em observá-lo o tempo todo. Certa vez, mais receptivo, ele me levantou no colo e brincou comigo, me dando esperanças de um dia dar-lhe ao menos um beijo na boca. Claro que minha paixão era só minha, e ao vê-lo casado, deixei de me apaixonar. Foi a última vez que tive um amor platônico por um homem inalcançável. Hoje, chego a achar lindo vários artistas, mas a maturidade me impede de ter sonhos impossíveis. À medida que amadurecemos, vamos nos sintonizando com a verdade, e os devaneios já não fazem sentido. Aprendemos que um homem de carne-e-osso é bem mais interessante, mesmo que não seja tão lindo como os galãs.
Recentemente minha sobrinha ficou apaixonada pelo cantor Justin Bieber e o seguiu por turnês em outras capitais, acumulando críticas de pessoas que não entendem a adolescência. Todo o processo que passei ela passou e teve que passar, assim como milhares de meninas que também seguiam Os Menudos, nos anos 80, ou Cauby Peixoto, na década de 50. A idolatria faz parte do ser humano e é apenas uma passagem. Ela só se torna uma doença quando essa paixão exagerada ultrapassa a realidade. Esse amor sempre existiu. Já na Antiguidade, as mulheres faziam fila para verem os gladiadores de perto, antes do espetáculo em que eles lutavam com animais selvagens, no Coliseu. Milhares de anos depois, não era incomum palhaços e acrobatas despertarem paixões nas virgens das cidades por onde os circos passavam.
Mulheres gostam de glamour, de paixões arrebatadoras, e as fantasias incluem todo tipo de homem, e quando este vem carregado de significados, é ainda melhor, aguça mais a imaginação. Quando uma garota vê um artista de perto, ela não apenas vê o ser humano, mas percebe nele toda a vida que poderiam desfrutar juntos, sem a realidade do cotidiano. Quando assistimos o galã nas novelas, não o vimos irritados com a demora na fila dos bancos, nem reclamando de falta de dinheiro. O vimos como sempre sonhamos: disponível, bonito, educado, gentil. Internalizamos aquele homem, ilusório, com significados reais. Inclusive, fazemos isso com nossos maridos, namorados, companheiros. Não os queremos nervosos ou com raiva por qualquer coisa. O desejamos sempre cheirosos e a nossa disposição. Como esse tipo de homem não existe, trabalhamos a nossa mente com a imaginação. Ao menos nela somos tão amadas como nunca seríamos na vida real. Chegar em casa e ser recebida com um longo beijo na boca é sonhar demais. Ser elogiada e receber presentes de quem se ama também o é. E, como nós, mulheres, somos observadoras e exigentes, mas realistas, sabemos que esse homem jamais existirá. Por isso, o que custa sonhar? O que custa imaginar? É só manter em segredo. Assim, ninguém precisa criticar ou rir das nossas fantasias. E elas nos fazem um bem danado!!!

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Beijos,

Carla Vilaça