sexta-feira, 15 de junho de 2012

Dono da rua também tinha coração!!!

A vida não oferece grandes acontecimentos todos os dias, mas para uma pessoa sensível, qualquer detalhe serve como aprendizado. Quando criança, tive um vizinho que se achava o dono da rua, o que causava medo e antipatia na meninada. No entanto, em algumas situações, seu Marcelo se mostrou tão doce,  que seu comportamento me serve como exemplo até hoje. Nestes nobres momentos, o "prefeito" da rua, como meus colegas o chamavam, se transformava num pai, cheio de carinho e consideração com os filhos.
Quando minha casa ficou ameaçada de desabamento por causa de uma construção irregular de um vizinho,  aceitei o convite para dormir em sua casa, no quarto da Ana, que havia sido grande amiga de infância. Naquela noite, havia uma festa familiar, e seu Marcelo foi enfático: "Hoje é aniversário de um parente e você será recebida como convidada. Não fale nada sobre sua casa. Divirta-se". Acho que antes de eu chegar ele fez o mesmo com as pessoas, pedindo para que ninguém falasse sobre o assunto. Suas palavras me deixaram a vontade até o dia seguinte, quando voltei para minha casa, sem que ela fosse destruída.
Em outra situação, seu Marcelo tomou uma atitude mais drástica. Depois de um fim de semana em seu sítio com adolescentes, perdi as sacolas de frutas que havia recolhido no pomar. Até que um dia seu Marcelo chegou à minha casa, com outras sacolas cheias de laranjas e mexiricas, para se desculpar pelo erro de uma jovem que também havia sido convidada para aquele passeio. Ao ver as sacolas no carro, ela alegou serem suas e o motorista as entregou. Ao saber do ocorrido, seu Marcelo resolveu a situação da forma que achou melhor.
Seu Magrelo, ou melhor, Marcelo, era muito magro, mas nos causava pavor quando estava em casa. Ele comendava tudo de sua janela, xingava, não aceitava irregularidades. Eu poderia guardar ódio dele, mas ao contrário, recordo apenas carinho e as coisas boas que me ensinou. Entre elas, o respeito pelo sentimento das pessoas. É olhar o outro, não com dó, mas com carinho. Tenho muito a agradecer... e a reclamar também: "poxa, seu Marcelo, queríamos apenas brincar. Éramos crianças, e o  senhor não era o dono da rua"!!!...

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Beijos,

Carla Vilaça