quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A evolução que nos faz perder!

Há milhares de anos, a agricultura e a domesticação de animais causou uma grande transformação no modo de vida do ser humano, que até então vivia em cavernas e se mudava à medida em que o alimento acabava. Com oferta de leite, ovos, carnes e frutos, no próprio quintal, o homem passou de nômade a sedentário, acarretando um prejuízo à saúde que pagamos até hoje. Começou assim e terminou na tecnologia que avança  a passos larguíssimos, a cada ano. Se antes precisávamos matar literalmente um boi por dia para comer, hoje encontramos o animal congelado, em pedaços, para cozinharmos diariamente. Nos supermercados, há também todo tipo de vegetais, vindos de toda parte do mundo. E nas prateleiras, encontramos ainda, biscoitos, doces, balas, manteigas e salgadinhos ensacados. Tudo com muito açúcar e sódio, que aumentam a glicose no corpo, causam pressão alta e permitem o acúmulo de gordura no corpo.
Há muito não precisamos matar um mamífero para servir de almoço, mas o que deveria ser um descanso, passou a ser o grande mal dos séculos. Do homem das cavernas até hoje, nossa alimentação foi se tornando cada vez mais "plastificada", com gostos muito parecidos, difíceis de serem definidos. Sem contar que preferimos refrigerantes à água, e sanduíche ao invés de um jantar saudável. E, se antes tínhamos que correr do perigo, ou em busca da caça, hoje temos tudo à mão, através do computador, controle remoto ou do aparelho celular. Com tanta comodidade, passamos a ficar mais tempo sentados ou deitados, do que em pé. Trocamos as caminhadas por esteiras e não há cheiro de flores ou de frutos, nem o frescor das matas, mas o som altíssimo das academias, que agridem os ouvidos, em tons confusos. E são justamente a ginástica localizada e os aparelhos tecnológicos que estão mudando nossas estruturas corporais. Se antes usávamos sobretudo os braços e pernas, hoje privilegiamos as partes do nosso corpo que poderão servir como um cartão de visitas para a delícia dos outros. E, apesar da substituição dos nossos membros inferiores e superiores (pernas e braços) por robôs em fábricas e construções, estamos gastando demais os dedos em mensagens que enviamos a todo momento através de aplicativos de celulares. 
Nesse movimento de descobertas e invenções, estamos perdendo muito, a cada dia. A tecnologia, muitas vezes, não privilegia as relações humanas, pois nos torna solitários, mesmo diante de uma multidão. Nossa evolução inclui pontos de luz, vermelhos, que fazem milagres ao menor toque. Assim, consigo ligar a TV ou mudar de canal, sem sair da cama. Passando um cartão, é possível fazer compras, endividar e entrar em hotéis chiques. Os alimentos, já cortados, ensacados, evitam os cortes nas mãos e o toque nas texturas de carnes, frutos e verduras. Tudo mudou muito rápido e estamos vivendo sem prazer, numa disputa em todos os setores. Já não podemos perder tempo conversando, sorrindo e todos parecemos iguais, até mesmo nos rostos, agora engessados pelo Botox, que congela a face para evitar rugas. As bocas perderam seus formatos originais e se transformaram numa aberração preenchida com a proteína animal.  Uma belezura de dar medo! 




Sátira da internet: site Prof.Dr. Fabricio Roscolo Del Vecchio



O mundo, apesar da tecnologia e das invenções mirabolantes, está tendo uma reviravolta, mas ao passado. Não estamos indo para fora de casa à toa. Cada vez mais estamos enclausurados em nossa "caverna", onde só saímos para o trabalho, para a escola ou baladas. É preciso ter um motivo sério para nos tirar de frente da TV. O quarto, que servia para dormir e para o sexo, virou o refúgio dos jovens que passam o dia em disputas digitais, se colocando no lugar de assassinos que dilaceram corpos, numa carnificina sem precedentes, coisificando a sanguinolência jorrada como água. Dá pavor presenciar crianças e adolescentes "matando" seres inanimados, feitos "à imagem e semelhança" do ser humano. Somos nada, fazemos pouco, não construímos, destruímos. E nos achamos demais! Tudo o que eu preciso é mostrar. E, nada melhor do que postando o que eu tenho, ou sou, na internet. A aprovação vem através dos Likes, das curtidas, dos comentários. 
Se o homem pudesse atravessar os séculos, poderia presenciar tais mudanças com muito espanto, mas tudo o que ele sabe é através dos livros ou dos registros feitos por outras pessoas, em épocas passadas. Da minha infância até agora, vi a TV se afinando, colorindo, passando de estrela da casa, a eletrodoméstico barato. Acompanhei a substituição da máquina de escrever pelo notebook, mais ágil e mais leve, e ainda com capacidade para impressão. Aprendi a usar o microondas para esquentar a comida, mas me recuso a fazer comida no aparelho, cujo resultado é de um gosto duvidoso. E o que dizer do celular, que surgiu como um bloco de tijolo e hoje cabe no bolso, e que serve não só como meio de comunicação, mas também como banco, internet e cinema em miniatura? 
As mudanças podem ser bem-vindas e necessárias, mas não me parece que o ser humano é mais feliz do que ontem. Fui uma criança que conheceu a rua como extensão do próprio quintal. Catei coquinhos na mata, criei passarinhos, colhi tanajuras no inverno e à noite guardava vaga-lumes embaixo da cama como se fossem abajur. Sou de um tempo em que os vizinhos faziam parte da família e os livros eram os companheiros na hora de dormir. Brinquei de boneca e troquei olhares com pretendentes nas escolas pelas quais passei. Televisão tinha hora para assistir, assim como a alimentação, que deveria ser balanceada e saudável. Hoje, as crianças estão viciadas em celular e os aparelhos viraram mania entre os adultos, que não conversam mais, mas passam o dia trocando mensagens e vídeos via Wattsapp. Não pretendo um retorno aos velhos tempos, nem reverenciar uma nostalgia dos tempos idos. É apenas uma reflexão, uma busca filosófica do que deixamos de ser, para nos tornarmos o que somos hoje. Pode ter havido um ganho excepcional com os adventos tecnológicos. Porém, o prejuízo às relações é incalculável. Tenho medo do que seremos no século seguinte. Ainda bem que não estarei aqui para contar a história.

Beijos, Carla Vilaça

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Carla Vilaça