sábado, 23 de julho de 2016

Solidadariedade confundida!

Eu trabalhava, sozinha, numa redação de rádio e ajudava o máximo de pessoas possível com pedidos de cestas básicas, medicamentos e emprego. Após o anúncio com resultado satisfatório, muitos iam me agradecer, pessoalmente ou por telefone, com mimos ou abraços. Mas, embora fizesse parte do meu trabalho e me deixasse feliz, aprendi que a solidariedade tem um preço alto a quem entende a ajuda pelo lado da esperteza. Inicialmente, eu me emocionava ao lidar com pessoas humildes que encontravam, no próximo, algum alento para a falta de alimentos ou de um trabalho que lhes devolvesse a dignidade. Num desses casos me empolguei demais e foi com ele que aprendi uma lição que me serve de parâmetro para discernir entre pedidos verdadeiros ou falsos.
Com cara de homem sofrido e manchado pelo sol, o ex-gari apareceu na redação me pedindo para colocar um anúncio para conseguir alimentos para sua família. Desempregado, com mulher e dois filhos pequenos, me disse que veio, a pé de uma cidadezinha por falta de dinheiro para a passagem de ônibus. Prontamente anunciei seu pedido, mas passei a levar todo mês, cestas básicas em sua casa até que ele conseguisse um trabalho. Quase um ano depois, percebi que ele recusava todos os serviços que apareciam sob as justificativas mais bizarras, como salário baixo ou falta de escolas perto da empresa. Mas, a falcatrua foi descoberta por acaso, quando uma cortina que cobria um cômodo de sua casa voou com o vento forte enquanto conversávamos no quintal. O estoque de cestas básicas e materiais de construção me fizeram entender que a minha colaboração ao casal estava sendo usada de má-fé. Desconcertado, aquele homem tentou, gaguejando, me explicar a troca dos produtos. Saí dali arrasada e nunca mais voltei. Alguns meses depois aquele senhor voltou e foi direto ao assunto: as cestas básicas que eu doava à ele estavam fazendo falta porque sua casa precisava ser concluída. Irritada, respondi que não o ajudaria mais e que conseguisse um trabalho para resolver seus problemas.
Sou muito correta e aquela situação feriu os meus valores. Aquele homem foi capaz de me enganar, para conseguir seus objetivos e tive vontade de esganá-lo, mas fui elegante. Depois dele apareceram outras pessoas se passando por miseráveis para conseguir ajuda sem trabalhar. Eu apenas colocava os anúncios que me pediam, mas não me envolvi mais naquelas histórias, ou ajudei sem que soubessem quando percebia que eram verdadeiras. Um destes casos foi com um casal jovem que pediu móveis usados para colocarem no barracão recém-alugado. O rapaz, lindo de olhos claros, magro e alto parecia um galã de faroeste, e ficava me encarando sem que a esposa percebesse. Consegui ajuda numa igreja e imaginei que isso estaria concluído, porém alguns dias depois o bonitão entrou na redação, sem ser anunciado, e me pegou de surpresa. Me assustei mas, o recebi com educação e permiti que me contasse sua história de ex-presidiário que engravidou a namorada e que não era aceito pelos pais dela. No meio de tudo isso ele insinuava uma paquera que eu não correspondia. Fingi que era casada e que meu marido era muito ciumento, descartando aquela conversa que atrapalhava o meu serviço. Nunca mais o vi e joguei fora o telefone que ele me deu num pedaço de papel.
É fácil confundir solidariedade com esperteza. Durante toda a minha vida me deparei com todo tipo de gente, capaz de passar por cima dos outros para conseguir a realização de seus desejos. É comum no ambiente funcional nos deparar com fofoqueiros, invejosos e assediares morais ou sexuais, e passar por isso me fez uma pessoa mais fria em alguns aspectos, o que foi bom já que meu coração se sensibiliza com tudo. Entre histórias tristes e alegres, me vi na obrigação de garimpar os verdadeiros e os mentirosos pedidos de ajuda, que me servem para a vida ainda hoje. Sou solidária sem que percebam para que assim os abusos não se aproximem. Faço doações de sangue, sou doadora de órgãos, ajudo pessoas carentes com cobertores e roupas usadas, mas sem que elas saibam quem doou. Preciso apenas que alguém neste mundo saiba que sou uma pessoa boa: Deus, que não conheço pessoalmente mas que sabe tudo sobre mim.
E é a Ele que agradeço tantas pessoas boa que coloca na minha estrada que é a vida e que me faz surpreender com os agradecimentos. Ainda nesta mesma rádio, um homem me ligou dizendo que era compositor e que gostaria de informações a respeito de regristro de canções. Expliquei tudo a ele, que me agradeceu muito. Alguns anos depois mudei de emprego e fui para a rádio Capital, em Belo Horizonte, onde passei a apresentar um programa aos domingos. Como sempre eu recebia muitas cartas e uma delas me deixou profundamente feliz. Era a do rapaz compositor que ao mudar de estação, ouviu a minha voz e passou a ser fã do programa. Em cada parágrafo ele me agradecia novamente a ajuda que lhe dei. Nunca o conheci, nem ele a mim, mas a empatia era verdadeira e me faz bem relembrar suas palavras cada vez que faço limpeza no meu baú de correspondências. É uma gratidão profunda de alguém que não me usou, que não teve segundas intenções no meu gesto solidário.
E são estas as diferenças na vida: o olhar de cada um pelo que fazemos pelo outro. Estas são apenas algumas situações diárias que eu vivia como redatora e que moldaram a minha alma, deixando-a flexível e ao mesmo tempo rígida. Aprendi a detectar a safadeza logo de início e descarto estas pessoas da minha vida. Me tornei mais madura em questão de solidariedade e não me importo mais com o que as pessoas pensem de mim. Ouço apenas o meu coração, que aprendeu a separar a safadeza da necessidade. E gravei a frase de uma colega de trabalho da época: "Quem realmente precisa tem vergonha de pedir ajuda"!

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Beijos,

Carla Vilaça