sábado, 5 de março de 2016

Sim, já fui submissa..e odiei!!!!

Querendo ou não, em algum momento da nossa vida somos o que nunca gostaríamos de ser. Por motivos variados, tomamos atitudes ou dizemos palavras que não condizem com a nossa alma nos deixando falsear em atitudes e comportamento, negligenciando nossos desejos mais íntimos. Geralmente isso acontece quando queremos agradar alguém ou para conseguir algum benefício particular. No entanto, essa interpretação não demora muito, para nosso alívio e desespero de quem esperava, e acreditava, que éramos perfeitos.
Foi por outra pessoa que fui submissa, num passado não muito remoto da minha vida. Por amor ao meu marido, me comportei como ele desejava que eu fosse: uma mulher muito recatada, religiosa ao extremo e preocupada apenas com as questões domésticas. Movida pela paixão, contrariei minha natureza e me transformei numa dona-de-casa exemplar, sem tempo para embelezamento e cuidados com o corpo. Não demorou muito para eu engordar e passar a exigir a presença do meu marido, que se afastava cada vez mais, em compromissos, como encontro com os amigos, futebol, e viagens.
Logo eu, que nunca aceitei mandonismos machistas, fui para o fogão, esfreguei cerâmicas e passei roupas como ninguém. Sei que é obrigação de todos manter a casa limpa, mas as exigências é que irritam. E eu obedecia. Só me dei conta de que tinha virado uma *Amélia, quando o meu filho nasceu e a situação se tornou ainda pior. Meu marido, ao invés de oferecer carinho, passou a ser mais distante, aumentando minhas desconfianças de uma traição. Meu coração, machucado, parece que ficava ainda mais apaixonado diante do desprezo. Deprimida, eu chorava o tempo todo e pedia atenção. Aquele não era o homem por quem me apaixonei. Meu marido havia mudado, se tornara mais frio e calculista, contrariando a minha visão de príncipe que eu havia construído em cima dele. Custei a perceber que apenas eu estava levando desvantagem naquele casamento de subserviência, entrega total e escravidão velada, não imposta e por isso bem aceita.
Em algumas situações, conversar já não adianta. Perdi a conta de quantas vezes tentei dialogar com o meu marido para que ele voltasse a ser o que era, que colaborasse mais nos afazes domésticos, que me olhasse com o desejo de antes, que dividisse os cuidados com o nosso filho e que ao menos, colocasse o lixo para fora. Tudo em vão. Meu marido é boêmio, gosta da noite e de amigos, de viagens e aventuras. Eu sabia que palavras não mudariam seu pensamento nem seu jeito de ser, mas mesmo assim, insisti. E não adiantou. Foi difícil admitir que o casamento, com tantas diferenças, havia terminado, mas acabou e não quero mais volta. Ele também não quer. Está mais feliz como homem solteiro, sem dar satisfações sobre os horários que chega ou para onde vai. Tornou-se um rapaz, um adolescente, enquanto me torno a cada dia mais mulher. Adoro a maturidade e ela me chega no momento certo, como todas as fases da vida. Já vivi minha adolescência com plenitude, para que ela não voltasse em idade avançada, como acontece com o Humberto.
Eu tinha planos com o meu marido mas não vale a pena perder tempo com eles, quando se sonha sozinha. Eu não estou feliz e mereço mais da vida. Depois que percebi o quanto estava sendo idiota, desci do salto e xinguei, briguei, fiz exigências que de nada valeram. Nada me impede de sair de casa, antes do divórcio, já pedido por mim, a não ser o medo do novo. Não gosto de desafios e meu cérebro, medroso, se prepara para as dificuldades de uma vida de solteira novamente. Mas, não posso ter saudades do que já não tenho há tempos. Sou uma pessoa que precisa de contato físico diário para se sentir bem. Gosto de andar de mãos dadas, de ser abraçada e elogiada, adoro falar e ser ouvida, amar e ser amada. E nada disso vinha acontecendo na minha vida amorosa. Mas, eu me anulei tanto, que não havia percebido que me faltava carinho e me contentava com muito pouco. Ao aceitar que apenas o meu marido se divertisse, eu dava espaço para a instalação da folga dele e a depressão em mim. Porém, não quero mais. Custei a acordar deste pesadelo.
Adoro casamento e o fato de o meu não ter dado certo, não fiquei com traumas e me casaria novamente. E poderia até cometer os mesmos erros, pois minha união não foi uma escola de amor. Vivi com plenitude meus dias ao lado do meu marido e fui muito feliz por um bom tempo, mas não temos mais intimidades como antes. Somos dois estranhos dividindo o mesmo espaço e dormindo em quartos separados. Apesar disso, não posso imaginar outro homem na minha vida... e nem outra mulher na vida do meu marido. Eu ainda o amo, mas o amor por mim é maior do que todo o sofrimento que venho passando. Nossos pensamentos se diferem cada vez mais, nossos diálogos estão mais raros e a admiração um pelo outro, se transformou em palavras amargas, que ferem profundamente. Não há motivo para estarmos juntos, mas existem vários para não dividirmos mais as escovas de dentes, os lençóis, as toalhas de banho, a mesa do café da manhã, os problemas e os sonhos. Eu poderia dizer que sinto muito, mas não sinto nada. A não ser raiva, muita raiva por ter deixado de ser eu mesma em alguns instantes do meu casamento.


*Amélia virou símbolo de mulher submissa, a partir do sucesso da música "Amélia é que era mulher de verdade", de Mário Lago.

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Beijos,

Carla Vilaça