terça-feira, 1 de março de 2016

Não se luta contra a natureza do outro!

"Me dê cinco anos para você mudar de ideia". A frase foi dita por uma funcionária da empresa onde trabalho, ao entregá-la a minha certidão de casamento para tirar a licença a que todo casal tem direito. A conversa desenrolou, me constrangendo, quando seu colega começou a dizer que casamento é bom apenas para as mulheres e, como ele não se explicou até hoje não entendo sua afirmação. Saí de lá meio sem graça, acreditando que os dois, ambos divorciados, estavam com inveja de uma pessoa tão feliz quanto eu, que havia encontrado sua cara-metade e com ela passara a dividir sua vida, sua intimidade, seus problemas e alegrias. E durante muito tempo eu insisti em provar a mim mesma que aquela dupla estava errada. Dez anos depois, sou obrigada a admitir que estavam certos, porém com algumas ressalvas: eu entendi que o casamento começa a degringolar em menos de cinco anos e que a união é boa apenas para os homens, não para nós, mulheres. 
Um casamento não se faz sozinho, nem sem compromissos. Conviver com o outro não é tarefa fácil porque implica sentimentos diferentes do que estamos acostumados com familiares. Envolve sexo, beijo na boca, conversas profundas, divisão de tarefas, favores e gratidão. Eu estava muito feliz em compartilhar a minha vida com o homem que amo e que naquela semana jurou, na frente de amigos e parentes que eu era a mulher da vida dele e que estava disposto a ficar do meu lado na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Eu estava apaixonada e era correspondida, não tinha como dar errado. Mas deu. Dois meses depois de casada, comecei a pensar que aquela senhora poderia ter razão, quando tive  a primeira briga séria com o meu marido. Talvez o casamento não fosse tudo o que imaginei. Eu não conseguia entender aquela vida solitária que eu e ele passamos a levar. Nossos assuntos, tão interessantes da época do namoro deram lugar ao silêncio de um de outro, que não compartilhavam dos mesmos gostos. Tudo bem, eu deveria esperar um pouco, conforme os conselhos que eu ouvia. Mas, aos poucos fui percebendo que a conversa, ao menos comigo, não era o forte do meu marido. Ele também continuava a "tomar umas" com os amigos e isso me incomoda até hoje, sem contar com as constantes viagens para sua cidade natal, sempre para rever os pais, os irmãos, a madrinha, os amigos, os amigos dos amigos, e a tartaruga de estimação. Não dou conta (acho que não sou inteligente o bastante para entender tanta saudade) e me pergunto porque um dia meu marido saiu de lá se vive voltando?
Quando casamos acreditamos que o outro é tudo o que projetamos, mas a constatação de que a fantasia não corresponde à realidade, machuca e cria profundas feridas, difíceis de curar. E as cobranças passam então, a ser um veneno para o relacionamento, com direito a ofensas que sangram e atingem a alma, a auto-estima, o brio, a dignidade e tudo o que há de mais íntimo no ser. No início, é possível resolver estes conflitos com muito romantismo e uma noitada regada a perdão e carinho (quero, na verdade, dizer sexo caliente). Mas, com o tempo, este tipo de desculpa não serve mais, e as brigas se tornam cada vez piores, um caminho fácil para a separação - de corpos e de dívidas. No entanto, antes do divórcio, há um caminho mais simples quando tentamos resolver, mais uma vez, as diferenças através do diálogo, mas como dialogar com quem alguém que prefere a monossílaba ao invés de frases longas? 
E eu sou uma pessoa que necessita conversar o tempo todo e estar em contato direto com a pessoa que ama. Abraçar, beijar, tocar o outro é importante para mim. Eu jamais me negligenciaria em qualquer relação que não fosse intensa. Também preciso falar do meu amor e demonstrá-lo em bilhetes, cartas e ou por meios eletrônicos (zap, e-mail, etc). É o romance que me move a minha vida e não pretendo ser diferente. Confesso que cheguei a tentar ser outra mulher, mais relax, mais desligada, mas não consigo, não me satisfaz. Também tentei mudar meu marido, mas ele também permanece fiel ao que sempre foi e lutar contra a natureza de alguém é doloroso para os dois lados. O certo é que não estamos felizes e precisamos mudar: de casa, de comportamento, de vida. Não sei o quanto vou sofrer longe do meu marido. Embora não estejamos mais casados (sexualmente falando), ainda me sinto amarrada à esta relação, que já passou por vários estágios e hoje custa a respirar como um doente terminal, atrelado a aparelhos hospitalares. 
Mas, hoje quem não quer conversa sou eu. Me cansei de mendigar assuntos, enjoei de pedir satisfações, me desanimei em querer as mesmas respostas para as mesmas perguntas. Acho que não sei lidar com os homens. Eles sabem se esconder em silêncios que não combinam com minha cabeça que pensa e fala, fala e pensa exaustivamente o tempo todo, exigindo que os outros sejam como eu. Chegou o momento crucial, aquele em que as decisões são tomadas pela natureza e não mais por nós mesmos. É hora de me desligar por completo do meu companheiro e entender que a vida será diferente sem ele, mas não será impossível. Acostumar com a vida de solteira será um desafio. E eu odeio desafios. Porém, não posso fugir desta situação. Por diversas vezes eu fui e voltei na minha decisão, mas ficar deixou de ser importante. Quero ir embora, mudar de cidade, de Estado. Preciso buscar a minha felicidade e não sei onde ela se encontra. A única certeza é que ela não mora aqui. E uma mulher completa respeita a si mesma, os seus sentimentos, os seus desejos, e não gosta de pouco, mas exige o máximo que pode. É nesta fase que me encontro. Descobri o que não quero para mim. Agora, falta descobrir o que eu  quero. Pode levar um tempo ou pode ser que esse tempo nunca chegue. Não importa. Só o fato de buscar a minha felicidade já me deixa mais animada e feliz. E a vida é só isso: uma eterna busca do amor que lhe traga a felicidade junto. É pedir demais, eu sei. Mas, fazer pedidos não é pecado.

Um comentário:

  1. Realmente Carla, casamento tem seus altos e baixos,e nem sempre é uma união feliz.o problema que cada um quer viver a vida de um jeito e esquecendo que os dois tem que ser parceiros,amigos,amantes e cúmplices.,onde na maioria das vezes não acontece...

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Beijos,

Carla Vilaça