terça-feira, 29 de março de 2016

Mulhere-se também!

Na semana retrasada estreou na Rede Minas, "Mulhere-se", o primeiro programa feminista da história da TV mineira e pude participar contando um pouco sobre a vida da jornalista Carmem da Silva, que durante 22 anos trabalhou como redatora da revista Cláudia (minha participação pode ser vista no link abaixo). Em sua coluna "A Arte de Ser Mulher, ela influenciou milhares de donas-de-casa brasileiras com seus conselhos de libertação feminina. Naquelas três páginas do periódico feminino, que não despertavam interesse dos homens, abria-se um novo mundo descortinado pela verdade de uma mulher sem medos. Carmem foi assim na profissão e em sua vida particular, quebrando tabus, enfrentando a todos com suas ideias e coragem, ao admitir um romance com um homem negro e casado (na época foi um escândalo), e por optar não ter filhos, numa época em que o futuro da mulher reservava-lhe apenas a submissão e a maternidade. 
Influenciada pela feminista francesa, Simone de Beauvoir, Carmem da Silva mudou a minha vida de menina-moça cheia de curiosidades sobre o corpo, sobre o meu papel de mulher que eu iria alcançar dali a alguns anos. Eu tinha apenas onze anos quando li pela primeira vez um artigo seu numa revista e o guardei por muitos anos, até que sumiu entre outros papéis. E adquiri um costume que nunca mais abandonei: riscar as partes principais dos textos para relê-los quando a vontade chegar. Aquelas linhas em preto-e-branco ajudaram a construir a minha mente ainda infantil para uma conscientização que mais tarde guiaria os meus passos e me impede de sucumbir aos mandonismos machistas. Aprendi ali a me respeitar como mulher (mesmo sendo ainda uma garota) e a me fazer respeitar pelo que eu sou. Não visto camisas da hipocrisia porque isso não me sustenta. Não há homem que grite comigo sem ser respondido à altura. Não há macho que me encoste o dedo, mesmo que ele tenha músculos mais fortes do que os meus. Não nasci para a violência, não concordo com os ignorantes, os brutamontes, os imbecis que acham que mulher é um ser inferior que nasceu apenas para ser mãe e ser usada e abusada no sexo. Não aceito assédios morais nem sexuais e principalmente humilhações.
Sempre fui ousada e corajosa, mas não tanto quanto a Carmem e outras feministas. Fui criada no interior, filha de mãe brava, que se preocupa mais com a sociedade do que consigo. O medo do que os outros vão falar é um freio psicológico muito grande que paralisa nossas ações e por isso ainda hoje há, em mim, resquícios de moralismos familiares, com os quais sempre lutei. A proibição de se falar sobre o corpo da mulher em casa atrasou os meus pensamentos e atitudes em relação a sexo, casamento e filhos, mas o feminismo nunca deixou de prevalecer, embora oculto aos olhos maternos. Se a fala e os gestos podem ser contidos com ameaças de tapas e chineladas, ninguém consegue domar os pensamentos, que ficam latentes para serem usados quando necessário. Ainda muito jovem eu era feminista e tinha sonhos de uma vida fantástica com viagens pelo mundo, namorando quem desejasse e ganhando prêmios por minhas reportagens. Não desejava apenas me casar e ter filhos (hoje vejo que isso é muito), mas ter notoriedade como mulher. Meus sonhos se transformaram, ficaram mais "pé no chão" mas sou feliz com a vida que escolhi. Hoje sou outra pessoa, com outras preocupações mas continuo firme em minhas convicções feministas. Posso ser o que eu quiser, desde que eu não seja massacrada pelos homens, por ninguém. Este foi o legado da Carmem da Silva: jornalista, feminista, escritora.




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Beijos,

Carla Vilaça