quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Chega de amor romântico!

Casamento não é fácil, mas descasar é ainda pior. Conviver na mesma casa até que a separação se conclua - e a Justiça é lenta - causa um desconforto, um constrangimento inigualável. Estou nesta situação e os dias ficam arrastados, empurrados, pesados com a presença de quem um dia foi o amor da minha vida e hoje é apenas o pai do meu filho. Não há assunto entre nós, nem intimidade, e a presença do outro já não é motivo de alegria como antes. Tenho vontade de me mudar, mas me falta coragem pelos costumes, pela rotina que me impus desde que passei a dividir meus dias com um homem, há dez anos. Assim como custei a me acostumar com ele, tento me desacostumar com o barulho do seu carro na garagem, a TV sempre ligada e os consertos domésticos que ele sempre fazia. São detalhes, como na música do Roberto Carlos, que nos ligam para sempre, mesmo com a falta de carinho. 
Conheci meu marido numa época difícil da minha vida. Eu havia terminado um longo namoro e meu tempo de ser mãe (biologicamente falando), estava terminando. O sonho de encontrar um pai para meu filho se tornava cada vez mais distante, até que aquele rapaz divertido se sentou ao meu lado num barzinho, depois que tentei fugir dele e o abandonei na pista de dança. Primo de um colega de faculdade da minha irmã, era para ela seu olhar inicialmente e por isso, deixei que os dois ficasse juntos, mas não deu certo. Ela ainda era apaixonada pelo ex-marido e não deu confiança para aquele moço. Talvez para não ficar sozinho, se enveredou para o meu lado, mas não encontrei nele algo que indicasse um futuro marido. No entanto, o destino é misterioso e ele foi embora sem que trocássemos números de telefone. Na semana seguinte, ele passou a insistir em me conhecer e resolvi permitir que me ligasse.
Quatro meses depois de nos conhecermos o Humberto me buscou em casa para um passeio. Era um domingo a tarde, ensolarado, e pensei em desistir. Não há como dar certo um encontro romântico nestas condições. Mas deu. Assim que chegou, ele tocou o interfone e desci. Não me lembrava direito de seu rosto e meu olhar desconfiado foi imitado por ele, inúmeras vezes, em conversas de amigos, meses depois. Naquele dia fomos a um barzinho e conversamos até a noite. Falei da minha vida pessoal e profissional, dos meus sonhos, sucessos e fracassos, sem máscaras. Eu estava cansada de buscar um príncipe encantado e não escondi os meus defeitos, nem usei maquiagem. Depois de tantas verdades, imaginei que ele nunca mais me procurasse, mas fui interrompida com um beijo ardente que se estendeu pela noite afora. Ao me deixar em casa, Humberto me avisou que a partir dali estávamos namorando e pediu para eu guardar na memória a música que tocava no carro. Confesso que não me lembro da canção até hoje. Eu estava certa de que aquele encontro seria mais um, entre tantos, e por isso não fiz planos.
Eu estava errada. Aquele rapaz, sem cara de marido e pai, foi quem me levou ao altar e me permitiu que eu fosse mãe. Parecia um conto de fadas, tudo dando certo, com romantismo e fantasias. Mas, não foi para sempre e chegou ao fim, sem final feliz, parecendo mais um folhetim barato. De nós dois restou apenas recordações que faço questão de esquecer aos poucos. O mundo real é diferente das histórias inventadas e a insistência não faz bem nestes casos. Não houve um motivo fortíssimo para que eu terminasse essa relação, mas eu senti que não era bem isso o que eu queria. Tentei várias reconciliações até ter a certeza de que nosso amor não havia acabado, mas estava completamente mudado, e eu queria o carinho de antes, a admiração, o respeito, a necessidade da presença do outro.
Sou muito intensa nas minhas relações e em tudo o que faço e um casamento insosso não me satisfaz. Eu eu meu marido somos muito diferentes em planejamentos e conversas e já não quero ouvir suas explicações para saídas com amigos ou viagens com familiares. Não quero um homem distante de corpo e alma. Quero um marido por inteiro, sem justificativas para não estar ao meu lado. Não me importa se vou ficar sozinha por muito tempo. Uma década de casamento me modificou, me deixou mais lúcida em relação aos homens. Se um dia eu voltar a namorar de novo, sei que cometerei os mesmos erros e outros mais. Sei que o cotidiano é uma ferrugem  nos alicerces do casamento, mas não faço planos. Assim como o Humberto apareceu "do nada", outro poderá surgir. Porém, já não faço planos de um amor romântico. Descobri que ele só existe em forma de ficção. Custou, mas aprendi.

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Beijos,

Carla Vilaça