quinta-feira, 30 de abril de 2015

O primeiro sutiã eu quis esquecer!

Aos 13 anos minha mãe me levou para comprar meu primeiro sutiã e a vergonha obrigou o meu silêncio, no trajeto de casa até o centro da cidade. Numa loja simples de roupas, ela pediu que eu escolhesse um modelo que estava numa banca de madeira, muito comum naquela época. Optei por um sutiã cor-de-rosa, e a entreguei para que fizesse o pagamento no caixa. Sem uma palavra sobre o assunto, ela me entregou o embrulho, que segurei nos braços, tentando disfarçar a alegria de começar a me tornar mulher. Pelo caminho, eu me imaginava aparecendo na escola com aquele sutiã por baixo da blusa branca, transparente, do uniforme... e foi por este motivo que não escolhi uma peça discreta. A ideia era que o sutiã aparecesse e chamasse a atenção para os seios que começavam a despontar.
Ter peitos, mesmo que tão pequenos (ficaram assim até eu engravidar), me davam um ar de sedutora,  de mulher fatal, que eu tanto admirava no cinema. E não demorou muito tempo, as curvas do corpo também começaram a se definir, me deixando ainda mais atraente. Sem qualquer sentimento de culpa, eu adorava me embelezar e passava horas em frente ao espelho, escolhendo as poucas roupas que eu tinha (a maioria doada por uma prima rica), para usar na rua, em conversa com os amigos, todos adolescentes. Sentados no asfalto, em círculo, falávamos sobre quase tudo. Sexo não era proibido, mas ninguém conhecia este ato na prática e as especulações eram muitas. Qualquer novidade a respeito, era motivo de curiosidade e pesquisa (sem internet, nossa fonte eram os livros e as enciclopédias).
E, naquele dia, cheguei de sutiã, chamando a atenção dos meninos. Fingindo não entender e sorrindo (esses gestos faziam parte da sedução), me achei adulta. A voz, grossa e firme,  em questão de horas, tornou-se melosa, para compor o visual de uma nova pessoa que nascia dentro de mim. "Isso é que era a flor da idade, que os mais velhos tanto falavam" - eu pensava. E morria de ansiedade pelo que vinha pela frente. Eu ainda não menstruava, não tinha namorado, não beijava na boca, não saía sozinha, não transava... Quanta coisa o mundo oferece ao sexo feminino! E quantas perguntas eu quis fazer, quantas dúvidas eu tive! Mas, na minha família, assuntos sobre o corpo eram proibidos. Numa casa cheia de mulheres, eu evitava assistir novela junto com os meus pais, porque sempre haviam cenas picantes, que me desconsertavam.
Ninguém morre por não saber de algumas coisas, mas a vida podia ser diferente com as mulheres. Quando passamos de um estado a outro, a silhueta acompanha, ficando pontuda em vários lugares, impedindo que os sinais físicos sejam disfarçados. Na adolescência, os seios deslocam-se do tórax e causam dor quando começam a brotar. Na menstruação, o útero fica inchado, e na gravidez, a barriga é a senhora da saliência. Mas, o que mais preocupa é o que ninguém vê. Quando passamos de menina à mulher, ficamos preocupadas de que todos descobriram nosso segredo do himem rompido. E, logo nos denunciamos com atitudes que até então, não condiziam com a nossa personalidade, como um amadurecimento repentino ou uma timidez exacerbada. É assim que as mães percebiam, na minha época, que suas filhas haviam perdido a virgindade.
Eu ainda não estava pronta para fazer sexo com ninguém quando ganhei meu primeiro sutiã, cujo modelo eu jamais usaria. Murcho, sem enchimento, eles não eram sedutores, mas representaram, na ocasião, um rito de passagem. Com aquela simples peça de vestuário, me preparei para um corpo que  pululava por mudanças. Não que eu estivesse esperando, calmamente por elas, mas sabia que dali para a frente, o mundo se abriria em oportunidades. E eu me igualaria às mulheres admiráveis, saberia beijar como elas, teria experiência para conquistar os garotos mais bonitos do bairro ou da escola, e estaria pronta para transar. É fato que a realidade se mostrou mais dura, mas pude entender a mente feminina a partir daquele sutiã. Antes dele, eu me vestia como um rapaz, jogava futebol na rua e despertava dúvidas sobre a minha sexualidade. Uma simples peça, sem graça, mudou a minha vida para sempre. Eu me tornava mulher e deveria me comportar como tal. Foi um avanço. Pude, então, entender, o que é ter duas saliências em lados opostos do meu tórax. Os seios faziam toda a diferença naquele corpo magrelo e ossudo. Não me garantiram um namorado, mas geraram assobios por onde eu passava. Pude, assim, comprovar, na pele, o que é ser desejada. E quer saber? É muito bom!!!

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Beijos,

Carla Vilaça