terça-feira, 3 de março de 2015

Que falta faz um bom médico!!

Ainda criança, fui apresentada àquele médico, pela minha mãe, que era sua cliente. Clínico geral e ginecologista, rapidamente ele me curou de uma infecção intestinal, e durante muitos anos, continuei consultando com ele, até que um dia o procurei para "assuntos de mulher". Eu começava a namorar e tinha medos e dúvidas que não podia compartilhar com meus pais, já que sexo era um assunto proibido na minha família. E ele me aconselhou, como um pai com sua filha, e me indicou anticoncepcionais. 
À medida que o relacionamento ia ficando mais sério, minhas consultas passaram a ser mais constantes. Certa vez, angustiada, o procurei para me salvar de um deslize com o preservativo. Ainda não existia a "pílula do dia seguinte" e eu estava no período fértil, portanto, a gravidez era praticamente inevitável. Apelidada por ele de "Menina Alegre", por causa do sorriso fácil, saí de seu consultório em prantos, com um exame de urina nas mãos. Felizmente o resultado foi negativo e pude relaxar. Mas, não aprendi com o erro e cometi outras asneiras, como todo ser humano é capaz de cometer.
Doutor Nahim faz falta. Pela competência, pelo carinho com seus pacientes, pelos conselhos que dava. Trazia comodidade ser tratada por ele, um profissional sem preconceitos, sem rancor, sem rabugisse. Era um apaixonado pela profissão e jamais recusava um atendimento ou um telefonema de uma cliente desesperada como eu, tão jovem na época, tão cheia de dúvidas. Me lembro de tê-lo procurado um ano antes de conhecer meu marido. Eu já estava com 36 anos e minha vontade de ter filhos aumentara, mas eu não tinha ninguém. Ficamos conversando por um bom tempo, sem saber que aquela seria a última vez. Dois anos depois liguei para o consultório para confirmar o endereço para o meu convite de casamento e a secretária me avisou que o Dr. Nahim tinha morrido há uma semana. Desliguei o aparelho e fiquei em choque, imaginando o quanto ele ficaria feliz em me ver casada, podendo realizar o sonho de ser mãe. Sei que me abençoou e que me vigia até hoje. Sinto sua falta quando procuro atendimento médico e encontro profissionais que mal se levantam da cadeira para avaliar o cliente.
Os médicos de hoje não têm tempo a perder. Cada segundo é transformado em dinheiro e a medicina virou um negócio, onde o paciente não passa de um objeto de trabalho. Não há conversa, não há olho no olho. E é por isso que cada vez mais, surgem aberrações envolvendo a área médica. São profissionais que erram feio nos diagnósticos, que fazem propagandas de remédios mesmo sabendo de sua ineficácia, e que indicam óticas e farmácias discaradamente, contando com a falta de punição dos Conselhos de Medicina. Mas, isso não é mais importante. Essencial é tratar o ser humano com carinho, dignidade e respeito, ouvir sua história, dar conselhos. Que não se justifiquem com a falta de tempo, por favor. Um profissional que gosta do que faz sabe a importância destes itens na vida de um paciente. Se não sabem, vão fazer qualquer outra coisa, mas jamais Medicina! Talvez merecessem a ajuda daquele médico: tão amigo, tão paternal, tão fraterno.

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Beijos,

Carla Vilaça