quarta-feira, 4 de março de 2015

A primeira vez de uma mulher!

Os rituais são comemorações que celebram passagens de um estado para o outro, como casamento, nascimento e funeral. Mas, há alguns abstratos, vividos por cada ser humano de forma particular, ou em forma de cantoria ou festas, como em algumas tribos indígenas, por exemplo. Na nossa sociedade, essas passagens são importantes mas, por vários motivos,  principalmente o pudor, costumamos escondê-las dos demais, como é o caso da menstruação e da primeira relação sexual. Porém, ao contrário dos rapazes que viam na primeira transa, um passo para a maturidade, as mulheres resistiam o quanto podiam para se resguardarem para o marido, em noite de núpcias. Se ela fosse ruim, que ficasse assim pela vida toda, uma vez que a separação, há alguns anos, era impossível e mal vista. E não raro os homens costumavam ser grosseiros com as esposas virgens. Acostumados com as prostitutas, que "faziam de tudo na cama", eles não tinham paciência com as mulheres que se escondiam em lençóis (algumas chegavam a furar um buraco para a introdução do pênis do marido, sem permitir que eles vissem seus corpos).
Nem sempre a primeira vez de qualquer coisa é boa, por vários fatores: falta de experiência, expectativas demais, curiosidades e medo. Mas, para os homens, fazer sexo pela primeira vez sempre foi mais fácil, porque contam com prostíbulos que os inserem na vida mundana, embora atualmente seja comum os namorados perderem a virgindade juntos. No entanto, se transar é tão simples, são as convenções, os mitos em torno dele que colocam essa modalidade cheia de segredos apavorantes. Para nós, mulheres, é como *A Caixa de Pandora, nunca se sabe o que iremos encontrar naquele baú misterioso. Até que fazemos sexo pela primeira vez e entendemos tudo e nos perguntamos: "é só isso? Cadê o resto de que tanto falam? E, Talvez, por essa facilidade, os homens (pais, irmãos, filhos), se preocupassem tanto conosco. E não é assim que tudo acontece? Afinal, se somos freados pelos medos, seria muito fácil amedrontar as donzelas de que sexo era pecaminoso e os machos da família estariam sossegados, pois não veriam as mulheres de suas famílias expostas em braços alheios.
O sexo antes do casamento é uma maravilha porque permite que a mulher faça escolhas e tome as rédeas de sua vida. Se não gostar da performance do namorado ou parceiro, ela não é mais obrigada a ficar com ele pelo resto de sua vida. Porém, nem sempre foi assim. Citando um caso familiar, uma tia distante foi obrigada a se casar com um ex-combatente de guerra por que já passava dos 30 anos e não queria ficar solteira. Há sessenta anos, uma moça virgem nesta idade era considerada "solteirona", ou que "tinha ficado para titia". Por falta de opção, ela resolveu aceitar o convite daquele homem, destruído em parte pela guerra. Mas, somente na noite de núpcias, ela entendeu do que todos falavam: o homem tinha perdido o pênis no front! Discreta, minha tia nunca falou sobre sua vida sexual, adotou um menino e viveu com o marido, até morrer. Não sei se foram felizes, mas havia uma insatisfação no rosto daquela mulher, apesar de sempre demostrar um sorriso nos lábios.
Numa situação mais recente, um colega da faculdade começou a namorar uma garota, e como garantia, pediu a ela um exame que comprovasse sua virgindade. Logicamente que o caso se espalhou e logo virou motivo de piada entre os estudantes. E, se antes ele era tão divertido, ficou sério demais, desde que começou aquele relacionamento. Perdi um grande colega de sala, com quem me divertia e falava besteiras durante as aulas. Era gostoso ver aquele rapaz lindo rir das minhas palhaçadas, e de repente ele se modificou. Como nunca mais o vi, espero que tenha se casado e que seja muito feliz.  
Sexo, na minha família, nunca foi uma palavra dita, e muito do que aprendi foi com a mãe de uma ex-vizinha, que explicava às filhas, tudo relacionado ao comportamento sexual. No entanto, minha mãe não podia saber sobre o que eu ouvia e por isso eu permanecia com aquele conhecimento guardado, imaginando o momento em que eu colocaria tudo em prática. E, como isso demorou. Ao contrário da minha amiga e ex-vizinha, que começou a transar aos 14 anos, arrastei esse tempo por mais uma década. Nossa diferença é que ela tinha um namorado sério e eu não tive a mesma sorte. E, como toda menina comportada, a primeira relação sexual não pode ser com qualquer homem. Infelizmente, não foi nem a metade do que eu sonhara, mas as outras foram melhores e são as atuais que importam.
Se o sexo é fácil, se são os medos que apavoram, a mulher de hoje é muito feliz. É ela quem decide quando e com quem quer transar, não somente a primeira vez, mas em todas as demais da sua vida. Parece bobagem, mas durante muitos anos não tivemos escolha. Os maridos eram determinados pelos pais da moça, que visavam não o amor entre os dois, mas a situação econômica do rapaz. Como recompensa, por ele "tirar" aquela jovem de sua casa, ele receberia um dote do pai da noiva. E, se ela não fosse mais virgem (o que não era incomum), tinha o direito de devolvê-la à família de origem. Em algumas situações, o pai não a aceitava de volta, e a moça acabava num prostíbulo.
Sou uma mulher da atualidade, mas durante muito tempo fui proibida de falar besteiras, que adoro. Minha mãe sempre foi muito séria e não permitia piadas e conversas a respeito de sexo. Como me casei mais tarde, custei a sair de casa e para não ser chamada a atenção pelas palavras, a maioria do tempo eu me trancava no quarto ouvindo música, vendo filmes ou escrevendo. Hoje, casada, me sinto a vontade para falar o que quiser e me sinto livre, uma mulher plena. De vez em quando eu ligo para minha mãe para me queixar do meu marido que dormiu na sala. Conversamos por longo tempo, até que eu toco neste assunto. Então, para se esquivar, ela bate no telefone: "Alô, alô, o celular está falhando... Carla, liga de novo que não estou entendendo nada..." Desligo, dou risada e ligo de novo, só que mudo a conversa. Tempos ruins o dela!
*Caixa de Pandora conta a história de uma menina que se vê diante de uma caixa, que esconde mistérios e que por isso nunca deve ser aberta. Curiosa, ela abre e coisas terríveis saem dali.

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Beijos,

Carla Vilaça