sábado, 16 de agosto de 2014

Não dá um livro!


Antes de me formar em Jornalismo, trabalhei como digitadora em um jornal de bairro, em Belo Horizonte, escrevendo matérias que seriam publicadas quinzenalmente. Entre um intervalo e outro, minha tarefa era digitar um livro, que contava a história de vida do pai dos donos do periódico. No entanto, eu não via nada de impactante, que pudesse interessar ao futuro leitor. Acostumada a ler Machado de Assis e José de Alencar, eu me sentia ridícula diante daqueles parágrafos infinitos, cansativos, que contavam sobre paixões, filhos, vida difícil na juventude. Não havia mistério, crimes, traições, ou poesia. No máximo aquela história poderia interessar à família daquele senhor, mas jamais se tornaria um best seller.
Mas, não é só aquele homem que acredita que sua vida dá um livro. Basta ver quantas obras se encontram nas livrarias. E a todo momento, surgem novos escritores, desejando fazer da literatura, seu divã. São artistas contando sua trajetória até a fama, mulheres que conseguiram engravidar, donas-de-casa que se libertaram de um marido machista, prostitutas que viraram socialite, etc, etc, etc. Casamentos, separações, filhos, frustrações, só viram livros, se fizerem parte da vida de pessoas famosas. Todo mundo tem conflitos, uns mais do que os outros, mas eles fazem parte do cotidiano, não há como fugir. No entanto, há uma diferença entre sofrer e ser absurdamente sofredor.
Há alguns anos, ganhei de um amigo, um livro sobre espiritismo, que acabou empoeirado na estante, até ser doado, sem que eu conseguisse chegar à página 12. Tantos relatos fantásticos, tantos milagres, não me encantaram. O mesmo aconteceu com os livros do Paulo Coelho, que não me seduziram. Mas, foi este escritor que deu um conselho interessante, e que sigo até hoje. Ele sugere que, se o leitor não gostou de determinado livro, o abandone sem culpa.  Foi isso que fiz com as obras do ex-parceiro de Raul Seixas e outros que chatos, sem emoções.
Os livros acompanham nossa trajetória de acordo com o que vivemos. Na infância, por determinação de professores, eu li a coleção Primeiros Passos e algumas poesias. Durante a adolescência, eu amava as obras que falavam de amor, liberdade, auto-ajuda, uma vez que as histórias se pareciam com os meus conflitos de menina-moça. Já na fase adulta, passei a me apaixonar por livros didáticos e eles me acompanham até hoje, ficam na cabeceira da minha cama, sem que eu tenha coragem de me desfazer deles, que já foram lidos e relidos diversas vezes. E, ultimamente, estou enlouquecida por costuras. Como não encontrei livros para comprar, copiei do computador, imprimi, colori e hoje estes manuais fazem parte do meu cotidiano.
Quando solteira, eu colecionava livros numa estante e eles foram transferidos para a casa da minha irmã, onde fizemos uma biblioteca num quartinho perto da piscina. As obras foram principalmente doadas por vizinhos que sabiam do meu amor pelas letras. Havia de tudo: História, Geografia, Psicologia, Clássicos da Literatura e muitas biografias. Com a chuva de granizo que caiu na região metropolitana há uns seis anos, o local foi invadido pela água e pelo gelo, levando consigo obras importantes. Como me casei e moro em apartamento, não refiz a biblioteca, que acabou sendo demolida. Consegui guardar apenas alguns livros de língua estrangeira. Eles representam minha discordãncia com o segundo conselho de Paulo Coelho: "Não deixe seus livros na estante. Quando ler, passe-os para a frente, para que outras pessoas possam lê-los". Não tenho coragem. Eles fazem parte da minha vida. E, sem lugar, ficam amontoados em caixas na sala, irritando meu marido. Finjo que não percebo, e deixo-os lá, guardadinhos, para um dia, quem sabe, ocupar outra estante!

Um comentário:

  1. Realmente tem livros que a gente não consegue desfazer. Eu tbm guardo alguns

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Beijos,

Carla Vilaça