quinta-feira, 22 de maio de 2014

Uma vida de sonhos!!!

Toda sexta-feira minha tia pintava as unhas de vermelho e depois esticava os dedos, admirando sua arte. Sinceramente, eu não gostava da cor e não sabia o porquê de tanto trabalho, já que seus finais de semana eram sempre iguais, sem visitas importantes ou passeios. Quando muito, acompanhada dos pais, ela ia à missa, aos domingos pela manhã. Não sei o que pedia aos santos, nem quantos pecados cometera, mas deveriam ser muitos, dado o tempo gasto em confissões e rezas. Mas, se não tinha amores ou amantes físicos, em sonho aquela mulher desejava um romance, e daqueles típicos das foto-novelas que ela lia constantemente. Distante daquela vida em segredo, eu observava a minha tia, sem muitas perguntas. Menina ainda, eu também não conhecia nada sobre os homens, mas tínhamos sonhos comuns de uma relação amorosa. Enquanto eu estudava, era cheia de amigos, me transformava em uma mulher, a rotina da minha tia era simples, mudada uma vez por semana, naquele ritual das unhas. Talvez, passando esmaltes de cores fortes, ela tivesse, por alguns instantes, a sensação de que algo diferente pudesse acontecer. Quem sabe, em seu imaginário, um homem bonito não aparecesse para fazê-la feliz? Muitas vezes, estas fantasias nos transportam para mundos irreais que nos mantém vivos. É o alimento para a alma de pessoas solitárias.
Minha tia viveu apenas 43 anos, pouco depois de perder os pais. Na casa de parentes, nem sempre era bem recebida. Ainda assim, era muito vaidosa. Apesar da maquiagem e do perfume barato, ela estava sempre arrumada e cheirosa. E se aprontava para ela mesma, mesmo com tanta tristeza que a vida lhe proporcionou. De família simples, ela nunca pôde procurar atendimento médico para um problema nas costas, que a deformou ainda na infância. Muito inteligente, minha tia só desejava morrer, até que conheceu o amor de verdade. Bonito ele não era. Rico também não. Com os cabelos desgrenhados, parecia um mendigo, mas ainda assim deixou aquela mulher apaixonada. Numa confissão, de madrugada, ela me revelou, com um largo sorriso, seu grande segredo. Estava ali, naquele homem feio, a explicação para a demora diária das reuniões na igreja.
A vida, às vezes é muito cruel e foi com a minha tia. Ela não desejava muito, apenas viver um grande amor, ter oportunidades como todo mundo, de estudar, trabalhar, criar uma família. Deficiente, com um gênio difícil, ela um arrastava os dias, sempre amparada pelas realizações alheias. Sua função aqui na Terra era o cuidar: dos pais, dos sobrinhos, dela mesma. Assim como muitas pessoas têm muito, ela tinha pouquíssimo. Sua rotina era muito simples, seus desejos mais ainda. Em nossas conversas de comadre (foi ela quem me ensinou a costurar), falávamos sobre tudo. À noite, eu pedia que Deus lhe desse um grande amor. Acho que ela pedia o mesmo. E foi atendida. Só não sabia que a realização seria tão breve. Célia queria mais. E merecia mais. Mas, o destino não quis assim. Há muito mistério entre a natureza e o ser humano. Minha tia não viveu nem a metade do que desejava, veio ao mundo apenas para sonhar. Só para sonhar!

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Beijos,

Carla Vilaça