quarta-feira, 21 de maio de 2014

O jeito de comer diz muito do que somos!

Num consultório, o médico chega com uma sacolinha de plástico e fecha a porta da cozinha, meio envergonhado, mas dá para perceber que ele guarda sua comida na geladeira. Em seguida, uma funcionária chega com sua lancheira e tem o mesmo procedimento. Num entra-e-sai constante daquele cômodo pequeno, enquanto aguardo a consulta, fico percebendo o quanto somos tímidos em relação à comida, quando se trata de comermos sozinhos em locais públicos. Não sei se esta timidez tem a ver com uma atitude pessoal, em que cada um tem seu jeito de mastigar, de engolir, ou de fazer cara feia quando come. O certo é que comer sozinho num restaurante ou numa empresa, por exemplo, acaba sendo uma atitude de vigília, como se estivéssemos sendo observados por outras pessoas.
O modo como nos alimentamos diz muito sobre nós, mas pode causar enganos. Há algum tempo, tive um patrão muito rico, que almoçava num restaurante diferente dos demais funcionários, mas que certa vez, convidou uma faxineira para acompanhá-lo. No dia seguinte, já em nossa companhia, ela revelou sentir nojo pela maneira como o empresário misturava a comida e o barulho que sua mordida provocava. Numa situação normal, confundiríamos os dois personagens, simplesmente pelo comportamento à mesa. 
Em outra empresa, onde trabalhei, um colega, que também carregava marmita, como todos nós, tinha um ritual que pude flagrar, certa vez, sem querer. Na hora do almoço, ele ia para o fundo do corredor externo, empilhava várias cadeiras quebradas, e sentava-se ali, ansioso, temeroso de que outro funcionário o visse, mas não se importando com a poeira da avenida movimentada. Não sei se se sentia vergonha por se alimentar na frente dos outros, ou pela comida que trazia de casa.
Eu também sou muito vergonhosa, e nos tempos de solteira, eu evitava comer perto do rapaz que me convidava para sair. Eu passava a noite inteira com fome, e ao chegar em casa, comia tudo o que via pela frente. No entanto, nada se compara a uma prima, grande companheira das noitadas (hoje se diz baladas). Como não sabia comer de garfo e faca, ela sempre recusava a  porção de carne nos restaurantes, na presença de nossos namoradinhos. E, determinada madrugada, ela deixou de provar um churrasco, e depois me perguntou baixinho se o sabor era tão gostoso quanto o aroma. Não consegui responder, apenas dei risadas sem fim. Para despistar, ela dizia para os garotos que era macrobiótica! Como não sou discreta, eu a olhava profundamente, com sorriso cínico, causando-lhe ira! Depois, nos divertíamos dando risadas da situação. 
Mas, se o lanche particular é motivo de vergonha, o contrário também acontece, quando a comida é compartilhada entre amigos, familiares ou colegas. Neste caso, a mesa vira um instrumento de conversas e de descontração, com direito a risadas e degustação das delícias expostas. E esse momento, se torna, então, uma espécie de relaxamento natural, tão necessário, principalmente em empresas estressantes. É o que acontece na sala dos professores, por exemplo. É ali que nos conhecemos, trocamos ideias, compartilhamos conhecimentos, e nos alimentamos com prazer. Porém, ainda assim podemos fazer uma leitura do comportamento dos colegas: há os que guardam os restos do que comeram, o que não lavam o que utilizaram, os que dividem o lanche e os que guardam para si. 
E a comida também pode ser motivo de brigas. Há muitos anos tive um namorado que me envergonhava perante os amigos, quando saíamos para jantar. Esfomeado, ele não recusava nada oferecido, e certa vez, acabou pagando pela gula. Alérgico a carne de porco, ele comeu um pedaço de bacon e começou a inchar, e em poucos minutos ficou parecendo um sapo cururu. Transformado, ele acabou no hospital, e eu, morrendo de vergonha. Em outra situação, ao provar sobremesa que pedi, ele acabou ficando com ela, sem me dar satisfação, e quando terminou a delícia, empurrou a taça para o meu lado, vazia. Fiquei tão irritada, que saí de lá xingando-o, reclamando da sua falta de modos perante as pessoas. Sem aprender com os erros, ele continuou assim até o fim do nosso relacionamento. 
Se a comida diz muito do que somos, devo parecer uma milionária. Não gosto de mexidos, nem muita simplicidade. Mas, uma vez fui pega pela rapidez. Eu almoçava num restaurante quando reconheci, no mesmo local, um homem por quem fui apaixonada. Ao lado de uma amiga, ele almoçava tão rapidamente, com a boca tão cheia de comida, que custei a perceber que era ele. Acho que pensou o mesmo de mim, talvez "uma moça sem modos à mesa". Eu comia um peixe ossudo e tirava os ossos dramaticamente, um a um e os colocava no prato, irritada. Meu comportamento deve ter lhe provocado medo, pois ao me esbarrar em sua mesa, ele sequer respondeu ao meu pedido de desculpas, me ignorou, fingiu não me conhecer. Talvez por que estivesse ocupado demais com a comilança, ou simplesmente porque aquele momento era só dele. E o pior: vai que me cumprimenta e vejo em seus dentes, uma folhinha. Pensando melhor, fez bem. Ou eu poderia pensar que ele era um porco à mesa. 

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Beijos,

Carla Vilaça