quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sempre na contra-mão!

Fazendo caminhada pelo bairro onde moro, observei no alpendre de uma casa, uma máquina de costura preta, velha, deixada num canto. Ali, abandonada, parecia que em poucos dias ela iria para o lixo, talvez após a autorização de sua dona, ou de seus herdeiros, caso a mulher não exista mais. Durante meu passeio, fiquei imaginando quantas roupas aquela máquina deveria ter produzido e o que ela representou na vida de alguém. E agora, no chão, se tornara obsoleta, sem memória. Senti uma nostalgia e os pensamentos me distraíram enquanto eu caminhava apressada. 
Primeiro vestido que fiz, 2013

Houve um tempo em que eu mandava fazer roupas nas costureiras, já que cada pedaço de pano se transformava em blusa, short ou vestido, por um preço bem inferior ao encontrado nas lojas. Hoje, muitas profissionais se aposentaram ou se cansaram deste ofício. E as que encontrei costuram muito mal. Desencantada, passei a me interessar por costura e a buscar informações em livros antigos ou pela internet. Comprei tecidos, linhas, agulhas e máquina. Até agora, só produzi uma peça, com defeitos, claro, mas o prazer de gastar o tempo com aprendizagem, vale a pena. A ideia não é me profissionalizar, mas fazer os modelos que as lojas não vendem.
Quando a máquina de costura doméstica foi criada, em 1830, seu idealizador não imaginava que ela seria um grande aliado das mulheres em suas conquistas pessoais e profissionais. Numa época em que o sexo feminino era visto como inferior ao masculino, era cosendo que elas passaram a ajudar no orçamento doméstico, percebendo que ter o próprio dinheiro era também uma maneira de criar uma segurança psicológica, que permitia uma liberdade tolhida pelos maridos. A partir de 1910, o equipamento se popularizou e praticamente toda mulher passou a ter um exemplar. 
Em minha casa também havia uma máquina de costura, acoplada à uma mesinha, que podia ser guardada quando não estava em uso. Para conservá-la intacta, minha mãe encontrou um jeito simples de proteger aquele equipamento: simplesmente batia em quem colocasse a mão nela. E o medo acabou nos afastando do ofício de coser.  E, assim como muitas máquinas de costura, a nossa também se tornou sem muita função. Mas, como ando sempre na contramão, resolvi aprender a costurar. Não sei até quando vai durar este entusiasmo, mas é ele quem me move. É costume não terminar o que começo, talvez por medo de que a conclusão me desanime. Quem sabe desta vez não seja diferente?
 
 
 

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Beijos,

Carla Vilaça