segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Fora da minha realidade!!!

A vida é cheia de segredos e às vezes em nada corresponde aos nossos sonhos. Na adolescência, decidi que seria atriz, estudei teatro, atuei em algumas peças, até que desisti desta carreira. À medida que fui crescendo, percebi que a realidade não combina muito com os planos. Ser ator de sucesso não garante uma vida tranquila para sempre. Porém, enquanto sonhava, eu fazia de tudo para pagar as minhas contas: fui secretária, telemarketing, promotora em supermercados. E um dos serviços mais interessantes foi o de recepcionista em festas e eventos. Em congressos, feiras e formaturas, eu conhecia pessoas interessantes, fazia muitos amigos, e ganhava bem. Mas, foi também o trabalho mais embaraçoso. Certa vez, numa festa em Belo Horizonte, elogiei a mansão de um empresário, e acabei sendo beijada a força por ele. Custei a me desvencilhar daquele homem que a noite toda ficou me olhando, e eu sem poder ir embora. A festa era para escolher meninas para um comercial e eu dependia de carona para voltar para casa.
Em outra situação, numa formatura, eu precisava levar um par de sapatos pretos, e só no local, percebi que havia trocado pelos da minha irmã, dois números a menos que o meu. Como não existia celular, custei a encontrar meu namorado, para me levar os sapatos certos. Quando ele chegou, meus pés estavam inchados demais, por causa dos dedos encolhidos, e eu estava roxa de dor. Eu já nem raciocinava direito e só desejava ir embora. Eu chorei quando vi que o carro dele estava longe e teríamos que andar a pé até lá.
Mas, de todos os serviços, o que eu mais detestava eram os comerciais para a TV. Como não sou linda, participei apenas de dois, como coadjuvante. Num deles, para um supermercado, chegamos no local as cinco da tarde, começamos a gravar às onze da noite, e saímos de lá às quatro da manhã. Num frio de doer os ossos, eu gravei mais de vinte vezes a mesma cena, na sessão de congelados e me sentia no Pólo Norte. Ao receber o cachê, percebi que o sacrifício não valeu a pena. Em outra propaganda, para uma loja de calçados, me pediram para levar meias de seda de várias cores, e roupas novas. Só depois entendi que as meias eram para todas as meninas do comercial, não só para mim, e que as cenas principais eram para a sobrinha da dona da agência. Como a propaganda não foi aprovada, recebi apenas metade do cachê, ou seja, o dinheiro serviu apenas para pagar o que havia comprado para participar daquilo.
Depois de tanta decepção, cansei de sonhar e joguei fora as minhas ilusões. Larguei o teatro, entrei para a faculdade e passei a dar aulas. Eu não aguentava mais aquela vida de incertezas, e procurava agora o "pé no chão". Foi uma das melhores coisas que já fiz na vida. Aquele mundo não era meu. Gosto de rotina, detesto trabalhar a noite, e sou muito caseira. Meu sonho inicial era me tornar uma grande estrela do teatro e da TV, mas o caminho é muito longo, sinuoso e incerto. Por muito tempo achei que a felicidade estivesse em festas, glamour, dinheiro. Tudo isso eu vi de perto e poderia ter me perdido no meio de propostas indecorosas. Mas, fui firme e não me envolvi com nada do que possa me envergonhar ou me arrepender profundamente. Na juventude podemos tudo e não avaliamos nada. Queremos a todo custo realizar nossos sonhos, que são muitos e achamos que o tempo não vai passar enquanto eles não se realizarem. Na maturidade, percebemos que a felicidade pode ser muito simples, e que ela não é estática. Os sonhos são muito importantes, mas os devaneios não. Como não posso voltar atrás, faço piada do que já vivi. Foi tudo tão ridículo, que hoje posso rir a vontade, sem medo de não passar na próxima seleção para um evento. Ufa, que alívio!!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários para os e-mails: carlaolharfeminista@gmail.com ou carlahumberto@yahoo.com.br

Beijos,

Carla Vilaça